Dilema de primeira crónica

Filinto Elísio*

Li Bai, poeta chinês, encoraja o mote desta escrita, porquanto tudo é saudade, sentimento tão ínfimo e lusófono que cá sabemos, caros leitores.

Nesta manhã fria de Pequim, depois de ler alguns trechos da valiosa antologia, intitulada «Quinhentos Poemas Chineses», coordenada por António Graça de Abreu e Carlos Morais José, experimento algum dilema sobre esta minha primeira crónica (digo primeira, porque doravante mensal) para o Jornal Ponto Final.

Inspirado pelo cancioneiro chinês que tal antologia suscita, não me é evidente saber o que um cabo-verdiano (por isso, mestiço de muitos costados) deva escrever para o público de Macau. Depois, calibrar a mensagem aos segmentos dos leitores deste diário, lusófonos na sua vasta maioria, escreverei textos inquietos e inquietantes, às vezes, bem como laudas comprometidas com o artesanato da modernidade literária, outras vezes.

Deverei escrever sobre a «reforma abrangente e decisiva», traduzida em mais peso para o mercado, conforme o anúncio da Terceira Sessão Plenária, do Partido Comunista da China? Deverei opinar nestas páginas de que o upgrade da visão chinesa do «básico» para o «decisivo», no referente à «riqueza gloriosa», possa ter um efeito indutor global, senão mesmo globalitário? Ou, tão-simplesmente, deva escrever sobre o radiante sorriso de um jovem casal na Praça da Paz Celestial? Quando não de um Pato à Pequim, desigual, para melhor, do que a mesma receita seria em Nova Iorque e mesmo em Macau? Ademais, sem pretensões que não as de oferecer crónicas que apeteçam ler e, se possível, façam reflectir, nem pruridos por fronteiras, confesso que as primeiras pinceladas carregam estas indecisões.

Macau e o novo paradigma de ação

Durante o Fórum Macau, a que assisti como observador interessado, pude depreender que o capital humano sobressai como uma das preocupações e, consequentemente, como uma das prioridades nas relações entre a China e a Comunidade de Países da Língua Portuguesa.

Pressupõe-se que, a par da cooperação política e comercial já em velocidade de cruzeiro, emerge um espaço para a criação e densificação de projetos culturais e educacionais voltados para a inovação, a competitividade e a qualidade. Emergem, para ser mais enfático, oportunidades de parcerias globais com novo paradigma.

Tal abordagem vai para além das abordagens consagradas, e afronta as premissas educativas de modelos mais voltados para o multilinguismo e o multiculturalismo.

E eis a pergunta, ainda tímida, mas que não se quer calar: fará sentido pensarmos o futuro do desenvolvimento e da cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa, tendo Macau relevante papel de Plataforma Educativa neste novo paradigma de ação que se aflora?

 

Centenário de Albert Camus

Em Macau, vendo da janela uma das pontes que vai à ilha de Taipa, escrevo um texto (a pedido do Centro Cultural Francês da Praia) sobre o centenário de Albert Camus, celebrado em todo o mundo no passado dia 7 de Novembro. Toca-me fundo a releitura de «A Peste» e de «O Estrangeiro», peças literárias que, outrora, me emprestaram a perspetiva existencial da escrita e que, ora, me permitem querer ser este cronista desassombrado.

Escrever sobre a influência que Camus exerceu em mim, muito por conta do poeta cabo-verdiano Mário Fonseca, imortal da Cadeira 38, da Academia Cabo-verdiana de Letras, que ocupo, é deixar fluir uma visão humana e humanista que me permite estar em Macau com sentimento de identidade e de pertença. Fonseca, ele próprio cidadão do mundo, interpretava a perspetiva de Camus como ecuménica e transcendente. Estruturalmente, não nos é possível ter outra natureza, se não a humana, na nossa diversidade, pluralidade e singularidade.

Por isso, escrever sobre este centenário e fazê-lo a partir de Macau mais não é do que uma deslocação do autor para o mais alargado de um universo que se recusa outra interpretação ontológica do vivenciar dos lugares e momentos.

Da janela do hotel, milhares de pessoas transitam, cada um levando o seu destino para onde desconheço, mas todos aportando para o drummondiano «sentimento do mundo», essa coisa que, do âmago, me interpela a ser um «caçador de heranças», bem à maneira do poeta (outro poeta) cabo-verdiano Baltasar Lopes da Silva.

Em verdade, os meus escritos, muito por haver lido o mestre, guardam recortes psicanalíticos de «caçador de heranças» e o apreender do que intitularia por «Da Peste que nos faz Estrangeiros». Dilema que, ao inaugurar esta primeira crónica, é afinal o ponto de convívio que vos proponho, caros leitores.

O resto é erguermos «a vista que a saudade impele», como diria a voz sábia, mas rebelde, de Li Bai.

 

* poeta e cronista

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