Lampedusa é que sabe

João Paulo Meneses*

Imagina-se que ‘alguém’ pediu a Portugal que nomeasse um representante permanente junto do Fórum Macau, para dar um sinal de maior comprometimento – que seria bom isso acontecer, que mostraria mais empenho, blá, blá…

Não sei quem terá sido esse ‘alguém’, mas não é difícil perceber que o argumento terá passado pelo facto de os chineses darem muito valor a certos gestos simbólicos e que, na verdade, esta seria sobretudo uma escolha simbólica. Mas, lá está, segundo esse ‘alguém’, importante.

Quando o recado chega a Portugal já vem com um nome anexado. De tal forma que o nome se confunde e, pior, se sobrepõe ao próprio facto.

Não houve tempo para refletir sobre vantagens e desvantagens, sobre a real necessidade de tal escolha, apenas que um obscuro militante do PSD, de raízes macaenses, iria desempenhar essa função (e o pouco que dele se conhecia desaconselhava tal opção).

Felizmente houve quem mostrasse o erro da escolha. Perante o silêncio (pelo menos público) dos portugueses mais conhecidos de Macau, coube aos jornalistas de língua portuguesa mostrarem o disparate que estava – e estava mesmo… – para ser cometido.

E o nome em causa caiu.

Como o nome em causa caiu, também parece ter caído a pressão para escolher um representante de Portugal em dedicação exclusiva.

Só por isso já valeu o que há alguns meses se escreveu.

Que se veja, não há qualquer motivo válido para Portugal ter um representante em exclusivo – que só faria isso, por definição – no Fórum. O que faria realmente no dia-a-dia?

Mas outra razão desaconselhou desde o princípio uma nomeação com estas características: Portugal sempre teve um delegado ao Fórum Macau que era quem devia ser: o adido económico da AICEP em Macau.

Participar nos trabalhos do Fórum seria uma das tarefas desse adido, em perfeita e lógica articulação com tudo o que representante da AICEP em Macau tem para fazer.

Acontece que – imagino, mais uma vez – devem ter convencido quem manda que para dar o tal sinal não se podia manter tudo como estava.

Ou seja, Portugal não nomeia um delegado a tempo inteiro mas tem de fazer uma nomeação, tem de dar o tal sinal de que muda alguma coisa. Ninguém foi capaz de dizer/explicar que, como estava, estava bem?

Pelos vistos não.

E o cônsul-geral de Portugal em Macau ficou com essas funções.

Mal, do meu ponto de vista.

Na China gostam muito de provérbios mas em Portugal também existem e de qualidade. Não temos Confúcio, mas o povo diz e bem que “para pior já basta assim”.

E foi exatamente o que nos aconteceu.

Espero que o futuro me desminta, que Vítor Sereno consiga ultrapassar as inevitáveis dificuldades iniciais e que Portugal não saia a perder com esta troca – que, insisto, apenas serve os interesses de ‘alguém’.

Lampedusa escreveu (não sei se exatamente assim, que nunca li ‘O Leopardo’) que se queremos que tudo fique como está é preciso que tudo mude. Pois, neste contexto, espero que tudo fique como estava, depois de tudo mudar. Já não era mau. 

 

PS – Não sei o que foi pior, se os atrasos sem desculpa de Paulo Portas em Macau, se as ‘justificações’ que deu quando chegou a Portugal. “É injustificado que a luta política atinja este tipo de mesquinhez e de falsidade”, disse. Luta política? Em Macau? O ridículo já não mata… 

 

(texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

* Jornalista

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