Breve dicionário do Fórum Macau

Sónia Nunes

 

No Outono de 2013, na fervilhante e relativamente poluída Macau, uma jornalista ficou retida duas horas à espera que algo acontecesse. Chegou um funcionário do Governo e disse-lhe: vamos para a actividade B da IV Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial Entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Foram ver a banda passar e assistir a discursos de agradecimento solene ao Governo Central. Tomaram nota do brutal crescimento económico da grande China e do que está para venda. Neste exacto momento, a jornalista recuou cem anos, ao tempo em foi publicado o “Dicionário das Ideias Feitas” do genial Gustave Flaubert e decidiu também ela manifestar-se contra os lugares comuns e as palavras que usamos por automatismo – é o que acontece aos jornalistas quando ficam sentados, calados, a olhar para o tecto à espera do que acontece no Fórum Macau. O Ponto Final teve acesso a essas notas, que reproduz aqui em parte. É serviço público.

África – Um país. Pobre, mas em crescimento. Tem duas cidades, Angola e Moçambique. É a nova zona económica da República Popular da China, a seguir a Shenzhen e Zhuhai. Posiciona-se como o principal mecanismo de abertura da economia chinesa depois das reformas de Deng Xiaoping.

Amizade – Globalização com características chinesas. Os países de todo o mundo acabam com qualquer vestígio de proteccionismo económico, promovem de forma desenfreada o comércio livre e estão de peito e braços abertos ao investimento estrangeiro, necessariamente chinês.

Atraso – Paulo Portas, vice-primeiro-ministro de Portugal. Chegar duas horas depois do combinado a uma recepção oficial no Bela Vista, não pedir desculpas, ignorar as circunstâncias e desatar a falar como se estivesse na Barragem das Três Gargantas dos Pequeninos. No regresso a Lisboa, culpar o ferry, o protocolo e o cão que comeu o trabalho de casa. Dizer-se vítima de uma inaceitável maledicência e anunciar que, em dia e meio, há mais produtos portugueses que vão ser exportados e mais investimento chinês em Portugal. Ninguém vai confirmar. Os bloqueios da Nam Kwong e a vagarosa diplomacia chinesa resolvem-se com atrasos. É branding. The portuguese atrasos are very typical.

Brasil – O único país que admite não precisar de Macau para fazer negócios com a China.

Centros de serviços para Pequenas e Médias Empresas, de distribuição de produtos e de convenções e exposições  – Ninguém sabe o que são. Parecem importantes e vão ser construídos em Macau, efectiva ou metaforicamente falando. Pode ser só uma força de expressão para as feiras comerciais que já acontecem no Venetian.

Cooperação – Imperialismo com características chinesas. A China desenvolve a economia nacional no estrangeiro, exporta trabalhadores e materiais de construção para cultivar bens de primeira necessidade em terrenos férteis cedidos pelos governos locais e explorar os recursos naturais que não tem porque polui muito. É produção interna além fronteiras. Os parceiros recebem uma comissão sobre o retorno do investimento chinês e nunca são confrontados com violações aos direitos humanos, nem actos de nepotismo. Todos gostam, menos os pequenos proprietários que perdem as terras (ver amizade).

Dinheiro – Palavra caída em desuso. Substituir por oportunidades ou potencial.

Estratégica – Adjectivo a empregar bem juntinho dos substantivos cooperação e parceria. Não quer dizer nada.

Fórum Macau –  Um encontro que se realiza em Macau a cada três anos para legitimar o investimento da China nas ex-colónias portuguesas. É giro porque os empresários acreditam na livre iniciativa.

Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa – É a mesma coisa que o Fundo de Desenvolvimento China-África, mas com dinheiro de Macau e expectativas em Portugal e Timor-Leste.

Jornalistas – Objectos de propaganda. É pegar neles, enfiá-los num autocarro ou numa sala, entretê-los com uma agenda misteriosa e dar-lhes o menor volume de informação no máximo espaço de tempo possível. É preciso jeito na gestão destas duas variáveis. Pode-se, por exemplo, arranjar três jovens e bem intencionados tocadores de violino e violoncelo, e meter-lhes à frente o clássico de Bach “Air on a G String”. É importante que não afinem os instrumentos e imaginem que estão só a ensaiar. A ideia é fazer com que os jornalistas, em vez de quererem entrevistar alguém, supliquem por tampões para os ouvidos. Este plano foi aplicado quando o campus da Universidade de Macau na Ilha da Montanha foi inaugurado pela segunda vez e funcionou.

Memorando de entendimento – uma mistura de amizade com cooperação. Servir frio.

Moderno – Estado capitalista que não faz juízos morais sobre regimes autoritários.

Plataforma – O terceiro maior mistério da criação humana, a seguir à origem e ao fim da vida. Respeita-se como acto de fé.

República da China – Império do Meio. Uma só China, reunificada de forma pacífica não só com Taiwan mas com mais de metade do mundo. Atribuí-se a origem do termo a uma gafe do secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Luís Campos Ferreira, mas revelou-se um lapso visionário. Arrisca-se a ser o maior contributo do Fórum Macau 2013.

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