Fora de tempo

Hélder Beja

1. Quem vive em Macau há tempo suficiente para ir conhecendo a cidade e as pessoas pode ter reparado que os membros da comunidade de falantes de português detêm a extraordinária reputação de nunca chegarem a horas – a uma passagem de ano, a um eclipse, a um croquete. Há excepções, está claro, mas muitos de nós contribuímos para a generalização dessa característica alegadamente tão latina mas não menos individualizada. Paga o justo pelo prevaricador dos relógios, já sabe.

Em mais esta visita a Macau, o vice-primeiro-ministro de Portugal, Paulo Portas, e a sua comitiva elevaram a coisa para outro patamar. No passado domingo, Paulo Portas não chegou atrasado à recepção organizada na residência consular para a comunidade. Portas, avistado na Penha quase duas horas depois da hora prevista, estava certamente ali para outro evento. Se fosse um jogo de futebol, o governante teria chegado nos descontos. Se fosse ao cinema (o que tanto gosta de fazer nas sessões da meia-noite, como disse há uns anos numa entrevista televisiva), já só teria apanhado os créditos. Paulo Portas não chegou atrasado. Paulo Portas faltou.

Passaram dois dias e ontem, na reunião do Fórum Macau, as mesas foram enchendo, a comitiva chinesa e algumas comitivas lusófonas já preenchiam as cadeiras e na secção dedicada aos representantes de Portugal ainda não se via vivalma. A comitiva lá chegou, os discursos oficiais fizeram-se e o Fórum continuo o seu caminho de vago ponto de encontro para agentes decisores da China e dos países de língua portuguesa.

Estes dois breves episódios – o primeiro inegavelmente mais confrangedor que o segundo – sintetizam de certo modo o posicionamento de Portugal nas suas relações com a China e o seu papel no Fórum: um papel fora de tempo.

Três anos depois de José Sócrates ter vindo a Macau dizer que “o espaço da lusofonia é sem dúvida uma prioridade absoluta da política externa portuguesa e um espaço privilegiado do esforço de internacionalização” do país, Paulo Portas veio a Macau dizer que Portugal está disponível para, ao lado da China e do Brasil, ajudar esses lugares menos desenvolvidos da lusofonia a entrarem no admirável mundo novo do progresso. “Muitas vezes concorremos mas juntos podemos vencer”, disse ontem Portas sobre esse braço dado ao gigante asiático, numa declaração carregada de originalidade.

A China, por sua vez, através do vice-primeiro-ministro Wang Yang e do ministro do Comércio, Gao Hucheng, regressou ao território com a lição estudada e uma lista de medidas. Propõe mais cooperação e investimento em áreas diversificadas, da educação à saúde, das bolsas de estudo ao desenvolvimento de infra-estruturas. Estabelece metas específicas para o volume de trocas comerciais, aumenta o valor do fundo de apoio aos países em vias de desenvolvimento. A Portugal e ao Brasil, supostos líderes do pelotão lusófono, fez o mesmo convite dos últimos anos: juntem-se, acompanhem este processo de boas intenções consumado em processo de intenções económicas, avancem para projectos comuns nos países africanos e em Timor-Leste, invistam, mexam-se. A resposta foi vaga, quase nula, praticamente a mesma de há três anos.

 

2. Que os primeiros-ministros de China e Portugal tenham dado lugar aos seus vices nesta deslocação a Macau, ao contrário do que aconteceu em 2010, deixa uma mensagem clara e pouco abonatória quanto ao real peso político do Fórum e ao funcionamento dos mecanismos que alavanca.

Portugal não se fez representar ao mais alto nível e trouxe poucas ideias. Sem novidades quanto ao centro de distribuição de produtos portugueses no Continente, com vontade de ter uma representação do Turismo de Portugal em Pequim e de, vá lá, exportar arroz para estas bandas.

O Brasil, como é do conhecimento de quem acompanha esta vasta plataforma, vem ao Fórum em modo passeio. Não faz negócios através do Fórum, não desenvolve alianças políticas através do Fórum, faz parte do Fórum como quem é membro honorário de uma organização simpática. O vice-presidente Michel Temer falou de equilíbrios na ordem mundial e de outras generalidades antes de se pôr a caminho de Cantão e Pequim, onde reunirá com os mais altos dirigentes chineses, incluindo o Presidente Xi Jinping. O Brasil nunca chegará fora de tempo ao Fórum porque na verdade nunca lá esteve.

Vêm depois os países para quem de facto o Fórum Macau ainda parece representar qualquer coisa. Angola, Moçambique, Timor-Leste e Cabo Verde formam o grupo de nações que se congratulam com os resultados deste lugar de encontro com o poder chinês – a presença da China em alguns destes países vem-se expandindo nos últimos anos, muito ao nível do desenvolvimento de infra-estruturas.

Já Guiné-Bissau e, noutro patamar, São Tomé e Príncipe parecem não ter razão para grandes sorrisos. A Guiné aponta as dificuldades no acesso aos fundos disponibilizados pelo Fórum para projectos de desenvolvimento; São Tomé, por seu lado, nem sequer tem relações diplomáticas com a China e enviou um ministro para assistir às cerimónias.

A reunião do Fórum termina e fica-se com a sensação de que pouco de novo vai acontecer. Assinaram-se um protocolos, declaram-se umas intenções vagas e tiraram-se umas fotos. De resto, a China jogou os seus interesses. Os países lusófonos parecem não saber ou não ter interesse em fazer o mesmo.

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