A insustentável leveza de ser coisa nenhuma

Paulo Rego

O regime é – e continuará a ser – de partido único, mas não uma ditadura porque há “aperfeiçoamento democrático” e aprofundamento da “democracia consultiva”. Na pele de porta-voz da linha política oficial, o académico Fang Ning apontou em Macau o norte para o Congresso do Partido Comunista Chinês, em Novembro, sob a égide da nova liderança. Em entrevista a este jornal, dada em Pequim, o economista Cao Can desvalorizou a ideia de reforma na lógica da “Likonomics” que, afinal, é uma via de “continuidade”. Ainda assim sustenta que o mercado livre é rei numa economia planificada e controlada. Esclarecidos… Esta confusão semântica faz lembrar o ‘sketch’ humorístico dos ‘Gatos Fedorentos” que arrasou a tese de Marcelo Rebelo de Sousa segundo a qual o aborto teria de ser criminalizado e, ao mesmo tempo, permitido.

Percebe-se no Continente a necessidade de dizer que tudo vai mudar, querendo manter tudo na mesma. Por um lado, a tensão social, sendo evidente, cresce num sentido que se tenta esvaziar; por outro, estando o mundo de olhos postos em Xi Jinping e Li Keqiang, está sobretudo ansioso de indicadores económicos positivos e menos preocupado com o liberalismo ou os direitos humanos e políticos. A estratégia de pressão que se seguiu à janela de abertura aberta por Deng Xiaoping, em 1978, cedeu aos ventos da crise global, que reza pela bênção do renminbi.

Cada nação tem direito ao seu próprio destino, mas perpetuar elites iluminadas não é de todo dar luz ao pensamento colectivo; comandar, planificar e controlar tem vantagens em circunstâncias específicas, mas não é a mesma coisa que libertar o indivíduo, fomentando a iniciativa privada, a inovação e a criatividade; o terror da instabilidade na China terá razões históricas e motivos de ponderação, mas anestesiar a tensão social não significa curá-la. Vista à lupa, a via socialista com características chinesas mais parece um programa clássico de extrema-direita: imperial e nacionalista, com autoritarismo e desenvolvimento económico. Nesse sentido, é bem mais próxima das teses de Pinochet e de Franco – no Chile e em Espanha – do que de Brejnev ou de Fidel Castro – na ex-União Soviética e em Cuba. Mais eficaz e interessante, a filosofia política chinesa é mais confusa e envergonhada.

Importa clarificar o discurso e iluminar o destino, por mais original e alternativo que ele seja. Primeiro, porque só isso lhe dará sustentação filosófica e credibilidade para servir de exemplo; depois, porque é insustentável querer ser tudo e mais alguma coisa, não sendo coisa alguma. Esta confusão semântica não engana toda a gente durante todo o tempo; os motivos que estão na base da encenação democrática e liberal cedo ou tarde voltarão à tona, com angústia renovada e a veemência própria da decepção. Um saco cheio de gatos ditadores e democratas, comunistas e capitalistas, socialistas e liberais, reformistas e conservadores… Não vislumbra horizontes de paz e harmonia.

A esquizofrenia semântica não tem características chinesas; é antes um drama da pós-modernidade. O Ocidente também confundiu democracia formal com cultura democrática, liberalismo económico com ditadura da oligarquia, ‘mis encene’ mediática com prática governativa, Estado de Direito com falência do Estado… A factura do erro é pesada e um povo de bolsos vazios tem a cabeça cheia de ideias perigosas. Como tão bem escreveu José I. Duarte, no Business Daily, é preciso recuperar a campanha de reformatação dos nomes lançada por Confúcio. As palavras são códigos e significam aquilo que se combina; o que mina o pensamento é fixá-las com num sentido e manipulá-las em sentido contrário. Sendo a virtude dos líderes o que legitima o seu poder, a transparência dos seus actos avalia-se também pela clareza da sua comunicação. No meio do caos conceptual, a percepção que transmitem é a de que dizem o que não querem fazer e fazem o que não querem dizer. No Ocidente, como no Oriente, um poder que é confuciano quanto baste, na convicção das suas virtudes; sendo isto, aquilo, e aqueloutro, na manipulação dos conceitos, é ao mesmo tempo uma coisa e o seu contrário. Ou seja, não é nada nem coisa alguma. E o que o mundo mais precisa é de voltar a acreditar em alguma coisa.

Resgatar a pérola ao rio

 

Ao traduzir os conceitos da linha oficial do regime (página ao lado), Fan Ning lançou também as sementes de uma ideia que corre o risco de morrer no desinteresse das nossas gentes pelo desenho teórico de um laboratório de modernização política à escala continental. Afinal, o regime da autonomia especial é assumido pela voz sem medo de Pequim não só como “interessante”, por força dos mecanismos potenciais de equilíbrio entre poderes, mas também como um laboratório no qual “qualquer experiência democrática”, mesmo que prove ter “fragilidades”, terá sempre o valor de ser “crucial” para ser “estudada na China”.

É quase um espasmo de sanidade ventos do Continente trazerem ecos de uma tese que, por mais óbvia que pareça na intenção do criador da fórmula “um país, dois sistemas”, perde sentido e oportunidade na surdez de quem tem a visão tapada pelos interesses de curto prazo. O problema não se reside apenas nos mais altos representantes do poder político e económico local, estendendo-se aos pilares da cultura portuguesa e norte-americana. Viciados no salamaleque da sobrevivência abastada, vão perdendo a consciência de uma função de charneira que, sendo pesada e difícil de cumprir, tem no céu um horizonte mais azul que na raiz funda da pataca. Tenho para mim que, entre a ilusão de ser importante, e a ilusão de realmente ser relevante, a segunda é bem mais sedutora. E se ela é expressa em mandarim… é bom que renove a energia da alma portuguesa. Essa pérola tornada baça pelo jogo de espelhos cantonense só voltará a ganhar brilho se for retirada do fundo do rio, mesmo correndo o risco de haver grandes banhadas. A outra opção, que é a de navegar à vista, seguindo a corrente seca do deserto de ideias, pode facilmente ditar a morte lenta por afogamento na irrelevância.

Há muitos problemas para resolver a equação que a tese do laboratório nos coloca. O primeiro dos quais – e talvez o mais sensível – é o de saber como cavalgar uma ideia que vem do centro, defendendo em simultâneo a autonomia da margem como um valor civilizacional e uma oportunidade individual; depois, é preciso descobrir como se quebra o espírito do tempo, atirando-nos ao abismo de um tempo que ainda não veio, sem com isso sofrer a fúria penalizadora dos donos do presente; é ainda essencial encontrar energia social para seduzir para a reflexão e para o debate todas as comunidades residentes – especialmente a maioritária – numa terra dominada pela sombra do silêncio; finalmente, resta descobrir como se arranca a raiz ao pensamento, preservando em simultâneo o chão do interesse comum. A teoria tem outras fórmulas e a História tem outros ensinamentos, incluindo o do progresso feito de conflito, sangue e revolução; mas o peso da Mãe Pátria impõe a estética da paz e a alma da terra pequena é tecida com jeito para ter calma.

O potencial é evidente. Está dito, está escrito e faz sentido. Até porque o ADN anti-continental que formata o carácter de Hong Kong e de Taiwan provoca uma natural desconfiança em Pequim. A questão que se põe é a de saber se o filho dilecto tem vontade e saber para cumprir um papel geralmente destinado à ovelha negra da família. Porque se for o pai reformador a levar a criança pela mão, nem ela cresce nem cumpre qualquer papel reformador, antes perdendo pelo caminho a sua ilusão se autonomia. O jogo que em Macau dará mais frutos é o da resiliência: esticar a corda até que ela saia da caixa, encolhendo apenas o suficiente para manter a magistratura de influência. O David não pode neste caso vencer o Golias. Essa fábula é gira, mas neste caso aplicação não tem aplicação. O que pode eventualmente acontecer é que um dia a formiga indique novos trilhos ao elefante, porque esta não tem perfil nem tamanho que o assustem, contida num cantinho sem riscos para a massa bruta. O actual papel de cigarra cantante, no circo da euforia do jogo, não mexe nem deixa mexer.

Fan Ning deixa outro recado importante: aproveitar as oportunidades do crescimento económico continental depende da capacidade de Macau cumprir a diversificação da economia. Não é propriamente asfixiando as pequenas e médias empresas no charco da inflação e da especulação imobiliária, nem com a infantilização da massa crítica local e a rejeição da estrangeira que lá chegamos. Por fim, é conveniente perceber que a economia política há muito nos ensinou que, sem relevância económica, a influência política não passa de um exercício virtual. A massa financeira produzida na indústria do jogo pode e deve apostar em novas áreas e suportar massa crítica que projecte a mudança de paradigma. Mas não é com a mão debaixo das fichas que se vão sentar na cadeira do Politburo. Em síntese, a consciência e a criatividade na modernização política, bem como a competência e a inovação em novos modelos de negócio são o mapa de um tesouro do qual muito se fala mas poucos tentam procurar. Tudo muito bem feitinho, com todos os prós e contras, contra todos os ventos e marés, talvez a aventura possa ser cumprida ao longo de uma geração. Por isso é tão excitante sonhar hoje com o Macau de amanhã. Mas esse é um trabalho Hércules, que precisa de todos os que cá estão e amam a terra, como também de todos aqueles que, mesmo que ainda saibam, também têm cá lugar. Como diria um velho sábio que admiro: Se fosse fácil fazia eu.

 

Dez anos não é muito tempo

Vale a pena comemorar os dez anos do Fórum Macau. Há certamente críticas a fazer nesse balanço que, em muitas áreas, fica aquém das expectativas; mas do ponto de vista formal o sinal dado pela China ao escolher Macau como símbolo da ponte para o Ocidente tem valor político e merece ser aplaudido. Sopro este ano as dez velas com o desejo expresso de que durante muitos mais essa ideia faça o seu caminho, dele retirando as consequências positivas que terá para a RAEM e para os quatro cantos do mundo onde se fala português. O facto é que não há projecto anglo-saxónico em Hong Kong, nem plataforma francófona em Xangai. E essa é uma consciência que parece faltar aos países lusófonos em geral e a Macau em particular.

Este é também o primeiro ano em que se libertam apoios financeiros para áreas de negócio que sejam do interesse da China na relação com os países lusófonos. Quem pode condenar essa estratégia? O projecto é chinês, não resultado de uma responsabilidade partilhada com a tendência para o vazio que revelou ser a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Também não há financiamento a fundo perdido, mas sim empréstimos comerciais com juros bonificados. Para quem esperava outro tipo de suporte isso será uma decepção, mas depois do desastre dos fundos comunitários desperdiçados em Portugal ou na Grécia também é difícil criticar essa opção; já para não falar da tendência para a distribuição relacional de subsídios em Macau, que não augura grande destino para dinheiros que não tenham de ser pagos.

As relações políticas e económicas estruturantes continuam a ser geridas directamente por Pequim. E não é só ao Executivo da RAEM que faltará vontade e saber para descobrir qual é o papel que pode afinal cumprir uma plataforma de serviços. A necessidade de um empreendedorismo com mapa-mundo não será nunca ultrapassada apenas pela mão lenta do Estado. A crise económica provocou uma nova consciência sobre o papel que a China pode ter na recuperação do capitalismo global e o interesse renovado pelo País do Meio abre novas janelas de oportunidade em Macau.

Falta muita coisa, a começar pela necessidade de se acreditar que uma sociedade de serviços competente e trilingue encontrará modelos de negócio para mediar oportunidades. Há uma realidade que já não merece grandes dúvidas. A língua portuguesa tem a dimensão que lhe dá o Brasil, faz a ponte para a Europa através de Portugal e representa o potencial africano instalado em Angola e em Moçambique. Se toda a gente acredita nisso, a começar pelos chineses, está na hora de quem fala português perceber que devem ter razões de sobra para isso, sobretudo quando se projecta uma geoestratégia multipolar que exclui um concerto entre nações reduzido ao inglês e ao mandarim. Ainda há muito tempo, porque o futuro ainda não chegou.

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