Em contramão

Hélder Beja

Num momento em que há tanto para resolver em termos de transportes na região, a questão do reconhecimento mútuo das cartas de condução entre Macau e a província de Guangdong é mais um tópico que se senta à mesa da discussão com o peso que, tudo indica, vem directo de Pequim.

A cidade está ainda (e sabe-se lá por quanto tempo) a tentar resolver a questão da Reolian e do serviço de autocarros. Gere a empresa temporariamente e tem aí um problema sério para tratar, já que as carreiras continuam a ser, bem ou mal, o garante da deslocação a baixo preço de milhares de pessoas todos os dias.

Os profissionais de táxi querem que o valor das tarifas cobradas seja revisto e insistem que o aumento do preço pago pelos utentes não pode estar condicionado pela qualidade do serviço prestado. Pois temos pena, senhores taxistas, mas a falta de qualidade do serviço posto ao dispor dos cidadãos não só pode como deve fazer parte desta equação. Caso contrário será como exigir que pais paguem mais por um colégio onde os filhos são mal tratados uma e outra vez, mesmo que nem todos os funcionários do colégio adiram a tão atroz prática. Se os taxistas querem cobrar mais e poder com isso respirar face à inflação galopante, as companhias de táxi devem primeiro resolver os muitos enigmas presentes no seu modo de funcionamento. Aqui, já se vê, há também muito que trabalhar para encontrar a solução.

Segue-se o metro ligeiro, projecto com impacto duvidoso na melhoria da mobilidade de pessoas mas já com algumas certezas bem decepcionantes: ajudará a destruir a paisagem urbana de Macau, ou não se tratasse de um metro de superfície numa terra onde o espaço não abunda; e terá, até ao fim, um processo de construção intrincado sobre o qual terá um dia de responder o Gabinete para as Infra-estruturas de Transportes.

É neste contexto de pandemónio que surge a questão do reconhecimento mútuo de cartas de condução. É certo que a nova ponte que unirá Macau, Hong Kong e Zhuhai está a caminho e que muito tem de ser estudado para assegurar o seu funcionamento. Pensou-se, porém, que o novo aterro onde ficará assente na RAEM a estrutura da ponte fosse suficiente para resolver as questões relacionadas com carros e condutores de outras proveniências. Pensou-se assim porque, enfim, parecia bastante óbvio, olhando para o estado do trânsito por cá e para o tamanho desta nossa cidade, que pouco mais haveria a fazer. Mas parece que não.

A população será mais uma vez ouvida, agora para dizer de sua justiça sobre se os compatriotas do Continente deverão ou não conduzir na RAEM. A sondagem avançará, com a transparência do costume, e depois dela chegarão as “decisões científicas”.

As declarações proferidas esta semana por responsáveis do Conselho Consultivo do Trânsito e dos Serviços para os Assuntos de Tráfego deixam no entanto perceber que o caminho a seguir já está traçado – como deixaram perceber as declarações das Obras Públicas sobre futuro do mosteiro que a congregação religiosa conhecida como Ordem Trapista quer construir em Coloane e que apenas por milagre avançará.

Este costume de ouvir a população mas de, antes ou ao mesmo tempo, ter membros do Governo a proferir declarações que desvelam desde logo o que está para acontecer não é saudável e só fragiliza as práticas governativas e os processos de auscultação ou sondagem.

Dito isto, parece então que os condutores da província de Guangdong poderão vir a guiar em Macau, alugando veículos, tentando ajustar-se às regras de tráfego do território e fazendo os possíveis para não entrar em contramão. Luís Correia Gageiro, dos Serviços para os Assuntos de Tráfego, acredita que nem todos os visitantes quererão andar agarrados à roda e que aqueles que o fizerem terão muito cuidado, por estarem em território desconhecido. Nota ainda que, como os carros que conduzirão serão à partida alugados em Macau e por isso já parte integrante do parque automóvel, o número de veículos vai manter-se “adequado”. O optimismo, neste caso, parece extremo.

Avançando a possibilidade de os visitantes da província vizinha poderem conduzir em Macau, dá-se mais um passo no esbater das fronteiras e das diferenças que esta região administrativa especial preserva. Dá-se, também, mais um passo rumo à “integração regional”, aqui ao nível do tubo de escape. Se, por outra, a ideia for que os veículos com matrícula de Cantão possam entrar em Macau, então mais vale pegar no carro e acelerar já para 2049.

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