Algo vai mal no reino da Dinamarca

Cláudia Aranda

Desde a semana passada que o escritor moçambicano Mia Couto está a dar a cara por um movimento pela paz que está a circular na Internet. O movimento surge na sequência da escalada de tensão naquele país entre o Governo e a Renamo. Também na semana passada, Mia falava no sentimento de desprotecção e desamparo que os cidadãos vivem hoje, a propósito da sucessão de raptos de cidadãos locais na capital moçambicana. “Quero paz para continuarmos a ser Moçambique”, diz Mia.

Na Guiné-Bissau, o governo interino há muito que deixou de ter dinheiro para pagar o gasóleo que alimenta a estação de fornecimento de electricidade em Bissau. E, como o abastecimento de água se faz através de geradores eléctricos que operam com energia, também deixou de haver água. Na capital, a criminalidade aumentou, vive-se às escuras e a conta-gotas. Técnicos eleitorais no país questionam a viabilidade da realização das eleições gerais inicialmente previstas para 24 de Novembro e discute-se o adiamento do acto eleitoral para 2014. A fome no país aumentou, há entre 30 e 40 por cento da população rural a viver em estado de insegurança alimentar, avisou a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

Esta mesma organização anunciou, também, que há quase cinco milhões de angolanos que, entre 2011 e 2013, passaram ou continuam a passar fome. Há cerca de um milhão de pessoas ameaçadas de fome no sul do país.  Ironia das ironias, não há comida para pôr na mesa de quase 25 por cento da população de um dos maiores fornecedores de petróleo da China, Angola, o país que tem como capital a cidade mais cara do mundo, Luanda, onde comer um hambúrguer custa cerca de 14 euros (à volta de 140 patacas).

Algo vai mal, muito mal no reino da Dinamarca, como diz Shakespeare em Hamlet. Neste caso, nos países de língua portuguesa.

No dia da abertura da semana cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, na segunda-feira, o cônsul de Portugal Vítor Sereno referiu que, no ano em que se comemora os 10 anos do Fórum Macau, a componente cultural é mais uma forma de reforçar as relações de cooperação e de amizade. “Quanto mais e melhor nos conhecermos, mais eficazes serão as linhas de pensamento e de acção que conseguiremos delinear para os nosso Estados e os nosso povos”, disse o cônsul, e muito bem.

A poucos dias do início da quarta conferencia ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, em Macau, questiona-se se os participantes vão fazer de conta que não se passa nada.

Já se sabe que o Fórum tem vocação apenas “comercial” e não política. Mas, pode ser, também, um espaço privilegiado para os diversos participantes se conhecerem melhor. Prevê-se a presença de delegações de alto nível das diferentes partes. Espera-se, por isso, que esta seja encarada como uma oportunidade para uns e outros tomarem conhecimento das preocupações que afectam os cidadãos naqueles países. Até porque essas questões também podem afectar os negócios que se querem estabelecer. Que essa discussão aconteça em encontros formais ou sentados à mesa, de preferência recheada com as iguarias que têm para oferecer os chefs que vieram a Macau mostrar a riqueza gastronómica da lusofonia.

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