O polaco mudo

Inês Santinhos Gonçalves

 

Em tempos conheci um rapaz que não falava. Trabalhava na cozinha de um restaurante de tapas em Glasgow. Era polaco, magrito, alto, olhos claros. Lavava pratos, que é como quem diz, punha-os em máquinas de lavar industriais.

Quando passava por mim, sorria-lhe, cheguei até a meter uma ou outra laracha de sotaque estrangeiro. Nunca me respondeu. Comecei a ficar ofendida, que mal educado este tipo, lá porque a vida lhe corre mal, olha que coisa. Até que um dia alguém se apercebeu daquele diálogo surdo e me explicou que ele não falava com ninguém, nem mesmo quando lhe faziam uma pergunta. Nadinha. A mudez, segundo me explicaram, foi fruto de um desgosto de amor épico, uma noiva fugida com um cowboy qualquer. Que drástico, pensei, este tipo é um maricas.

Não me lembro do nome dele. Na verdade, o polaco mudo era quase invisível. No fundo da cadeia alimentar de um restaurante, mexia nos restos dos outros, tinha as mãos sujas e o fundo das calças brancas encardido de tanto roçar no pó do chão. Aquele emprego era o início do seu scottish dream: começavam uma vida a dois, ela ainda não tinha encontrado nada e ele não a queria a gastar as mãos. Fazia o que podia, primeiro a lavar pratos, quem sabe depois num voo mais alto, que a vida é mesmo assim, cheia de sacrifícios. Mas depois ela foi-se, dizem que se sumiu sem um ai – o polaco ficou sem dream e toda a gente sabe que a Escócia não se aguenta sem uma boa dose de lirismo.

Neste domingo indeciso, lembrei-me do polaco mudo de há duas vidas atrás. Nessa altura eu sabia tudo. Sabia que o caminho era sempre para a frente, nada se perde, tudo se transforma, olhos na meta, andar, andar, andar. Gostava de mim assim.

Hoje, nesta cidade de corações partidos e gente de pouco rumo, penso no polaco. Macau também é um sítio para onde as pessoas vêm à procura de alguma coisa e onde se desiludem tremendamente. Mas depois, aqui tão longe de tudo e com o consolo da subsistência assegurado, ficam. Não sabem se não ficar com medo que seja pior, com medo que não tenham lugar noutro lado, com medo que as coisas mudem – ensinam-nos, lá está, que a vida é feita de sacrifícios (e que o medo é bom conselheiro).

Penso, neste domingo dormente, que fui severa com o polaco. O que é que sabia, afinal, de planos falhados?

Não sei que foi feito dele. Eu, como esperava, segui caminho. Vim parar aqui. E aos domingos penso muito que um bocadinho de silêncio não me fazia nada mal.

 

Altos

É de aplaudir a intenção do deputado Ng Kuok Cheong de apresentar uma lei de acesso à informação. Este tipo de legislação já existe em praticamente todos os países europeus, e vários americanos e asiáticos, e garante o acesso a informação ou documentos públicos, que sejam detidos por departamentos do Governo. Há diferenças na legislação, consoante os países, mas o princípio geral é sempre o de que a informação governamental deve estar toda acessível ao público, salvo raras e específicas excepções. É possível entender que esse direito já vem assegurado noutros diplomas, como a lei de imprensa. Mas é importante não esquecer que o acesso à informação não é um direito exclusivo dos jornalistas, é um direito de todos os cidadãos. E se o Governo de Macau já faz um trabalho tão primoroso a negar-sem-nunca-negar dados a quem já tem experiência a obtê-los, imagine-se o que será quando o interlocutor é um cidadão sem descaramento, engenho e paciência para insistir até à exaustão. Não há garantias de que uma lei de acesso à informação fosse acabar com os eternos atrasos na divulgação de dados ou impedisse as respostas vazias de conteúdo que pretendem disfarçar o “não respondemos”. Mas seria um passo em frente. Uma real política de transparência é urgente para Macau. I.S.G.

 

Baixos

Não é razoável o pedido dos taxistas para o aumento das tarifas. Não só estas subiram há pouco mais de um ano, como o serviço prestado por estes profissionais é consensualmente mau. Macau será dos poucos sítios no mundo onde frequentemente um taxista se recusa a levar um cliente e chega até a expulsá-lo do veículo. Não ignorando que também circulam na cidade profissionais de valor, é muito difícil fechar os olhos às constantes faltas de educação, sem falar nos esquemas para trapacear turistas e enganar residentes em dias de tufão. Assim sendo, faz sentido que o Governo se tenha já oposto à subida. O que não faz tanto sentido é que, para alguns assuntos, o Governo entenda que o mercado deve ser deixado em paz e para outros entenda que é precisa regulação. Os táxis prestam um serviço público, é certo, mas os autocarros também. E quando a Reolian avisou o Governo que estava a enfrentar dificuldades devido à ausência de subsídio ao aumento das tarifas, este respondeu: “Tem de ser a própria empresa a resolver os seus problemas financeiros”. Em que ficamos? I.S.G.

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