Inevitabilidades

Hélder Beja

1. A economia chinesa está a abrandar. No ano passado registou 7,8 pontos de crescimento, o mais baixo desde 1999, muito longe dos 13 por cento de 2007. As sirenes, está claro, soaram – o gigante asiático começava a perder força, o boom industrial influenciado pelo constante aumento do consumo interno parecia desacelerar. Agora, as sirenes ainda continuam ligadas e esperam-se medidas ainda este ano, no próximo encontro da cúpula do Partido Comunista, que possam voltar a estimular os dígitos e fortalecer a harmonia através da prosperidade.

O desenvolvimento industrial da China e do mundo em geral é uma inevitabilidade – trata-se de um facto que, juízos de valor à parte, tem a cabal característica de vir a ser consumado. A segunda maior economia do mundo continuará forte (mais digito, menos dígito), o consumo interno e as exportações continuarão suportados pelo dinheiro que vai aumentando nos bolsos dos largos milhões que compõem a classe média, por um lado, e pela procura de mão-de-obra e produtos baratos da parte de importadores estrangeiros, por outro. A população chinesa terá gradualmente mais poder e riqueza material. A população chinesa viverá melhor. E qual será o preço a pagar?

Harbin, nordeste do Continente, esteve nos últimos dias coberta por uma densa nuvem de poluição, reduzindo a visibilidade a dez metros e forçando o encerramento de escolas e estradas. Miúdos tiveram de regressar a casa porque não era seguro estar na rua, os pais tiveram de deixar os seus trabalhos para se exporem à poluição e recolherem as suas crias, os aviões não levantaram voo, os automobilistas não podiam conduzir com uma bruma tóxica que não deixava ver um boi numa recta.

As máscaras saíram da gaveta, as figuras humanas e curvadas tolheram-se, as fotografias começaram a circular na Internet. Não era ficção científica. Era uma cidade fechada para balanço pela poluição. A notícia fez as parangonas da imprensa internacional. Um dia, dois dias e pronto, passou, está tudo bem, vamos continuar a fortalecer a harmonia através da prosperidade.

 

2. Em Macau, as fracas e pouco fiáveis estatísticas dizem que o ambiente piorou no ano passado. O resumo é assim: mais resíduos, menos dias de sol, mais carros e motas nas estradas, menos dias com qualidade do ar classificada como boa, maior consumo de água e menos qualidade nas operações das estações de tratamento de águas residuais, e um quinto do total de dias sob chuvas ácidas.

É um retrato triste, difícil de reverter e que, ao mesmo tempo, convive hipocritamente com eventos anuais como o Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental, onde todos os anos empresas estrangeiras vêm para não ter qualquer impacto na vida e na qualidade do ambiente local; onde todos os anos a Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental fala de uma política ecológica que, sejamos honestos, não existe. Veículos amigos do ambiente? Reciclagem? Digam o que disserem, não existe.

Todos podemos ver o que está a acontecer em Coloane por estes dias e, neste caso, é mais difícil chamar-lhe inevitabilidade. Claro que Sio Tak Hong –um dos promotores do terreno onde está a casamata portuguesa e onde Sio quer erguer torres até 30 andares – não concordaria com isto. Ele próprio disse em Março deste ano: “É inevitável destruir o ambiente”. E acrescentou: “A montanha [da antiga pedreira] de Seac Pai Van também foi explodida para se construir habitação pública. Só o Governo é que pode destruir o ambiente? Eu não posso?”.

Há que perceber o ponto de vista do homem, ainda que se lamente que Sio Tak Hong considere que um exemplo bem esgalhado possa servir de justificação para coisas de somenos como, vá lá, destruir o ambiente. O ensinamento dado pelo Governo, com as torres de habitação pública de Seac Pai Van – blocos indizíveis, com áreas, materiais e linhas de construção tão impróprias de um território que diz que faz e acontece – não legitimam mas permitem tomadas de posição como esta.

Em Macau como na Continente, aquilo que não deveria ser uma inevitabilidade – a destruição do ambiente e as questões de saúde que isso levanta – não só o é como ainda recebe elevadas doses de indiferença por parte de uma governação vergada aos poderes económicos, e de uma sociedade civil adormecida pela ‘qualidade de vida’ que ter dinheiro no bolso possibilita.

Em “It’s All About Love”, filme de Thomas Vinterberg situado num hipotético futuro próximo, há pessoas que morrem nas ruas. Morrem de solidão e, depois de mortas, os seus corpos ficam nos passeios e nas escadas rolantes. A vida, no entanto, continua com normalidade e ninguém parece vê-los ou preocupar-se com aquela gente que anda para ali a falecer. Este grau de indiferença pode ainda estar longe de existir nos nossos dias e não, não é inevitável. Mas bem sabemos que a realidade é uma danada no que toca a superar a ficção – desde que, lá está, seja para fortalecer a harmonia através da prosperidade.

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