Olhando a Maratona

 Agostinho Caetano*

Realiza-se no próximo dia 1 de Dezembro, com início às 5h, a 32ª edição da Maratona Internacional de Macau, iniciada no ano de 1981. Com algumas variações de percurso e disputada com o tráfego simultaneamente a circular junto com os atletas (o que pela primeira vez não vai acontecer este ano e se aplaude), a prova tem como melhores tempos: 2h12m49s horas no sector masculino, do atleta Stephen Kwelio Chemlany, do Quénia; e 2h31m28s horas no sector feminino pela atleta Chesire Rose Jepkemboi, também do Quénia e ambos efectuados no ano de 2011.

Os atletas portugueses dominaram a prova no sector masculino entre 1989 e 1995, registando cinco vitórias individuais, através de António Costa com três vitórias consecutivas (1989, 1990 e 1991), Paulo Catarino em 1994 e Henrique Crisóstomo em 1995, bisando em 1998. A partir de 2000 – e como tem acontecido na esmagadora maioria das provas – Macau não fugiu à hegemonia dos atletas africanos. No sector feminino o domínio tem pertencido a atletas asiáticas com grande predominância de atletas de Hong Kong, seguidas de atletas do Continente e da Coreia do Norte. A hegemonia africana começou a manifestar-se apenas a partir de 2009, tendo registado três triunfos no últimos quatro anos.

No ano passado um engano dos atletas no itinerário do percurso provocou que percorressem mais três quilómetros do que o regularmente previsto. São situações que se devem de todo evitar, mas que infelizmente acontecem… A Maratona de Macau não é caso único e certamente não tornará a repetir-se.

A corrida da Maratona disputou-se pela primeira vez em Atenas em 1896, na primeira edição do Jogos Olímpicos da era moderna, idealizados pelo barão francês Pierre de Coubertain como reconstituição dos Jogos Olímpicos disputados na antiga Grécia. Como homenagem ao povo grego, a prova pretendeu reconstituir a “trágica” corrida do soldado grego Feidípedes que, segundo a lenda, no ano de 490 a.C. teria percorrido uma distância aproximada de 40 quilómetros entre a planície da Maratona (Marathon) e Atenas, para anunciar a vitória que o exército grego acabara de alcançar sobre o exército persa na batalha que tivera lugar no referido local. Esta informação revestia-se de capital importância, uma vez que os Persas tinham ameaçado que em caso de vitória marchariam sobre Atenas, violariam as mulheres e matariam os filhos da nação grega. Tal ameaça teria levado à determinação de que as mulheres matassem os seus filhos e se suicidassem se dentro de 24 horas não obtivessem quaisquer notícias sobre a batalha. Como esta teria demorado mais tempo do que o previsto, a informação assumiu um carácter urgentíssimo. Após o anúncio da vitória, o soldado terá falecido não resistindo ao cansaço provocado pelo esforço dispendido.

Esta homenagem não poderia ter sido melhor sucedida. Foi precisamente um grego o vencedor da corrida, o pastor Spiridon Luís com o tempo de 2h58m50s. Daí para cá a Maratona tornou-se um marco do Atletismo em geral e dos Jogos Olímpicos em particular. Logo no ano seguinte (1897) passou a realizar-se aquela que é a mais antiga das maratonas disputadas anualmente: a Maratona de Boston, nos Estados Unidos.

Até aos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908, as maratonas tinham uma distância aproximada de 40 quilómetros, nessa maratona e por uma questão meramente organizacional a distância foi de 42.195 metros, precisamente o espaço percorrido pelos atletas desde a linha de partida frente ao Castelo de Windsor, residência oficial da família real britânica, até à linha de chegada no Estádio Olímpico de White City, após efectuarem uma volta completa na pista de atletismo. A partir de 1921 as Maratonas passaram a ter essa distância como oficial.

Sendo uma prova corrida na sua quase ou mesmo na totalidade fora dos estádios, a natureza dos traçados mais ou menos sinuosos, os espaços envolventes proporcionando maior ou menor protecção são, entre outros, factores susceptíveis de influenciar positiva ou negativamente os resultados obtidos pelos atletas nas diversas maratonas.

Apenas a partir de 1 de Janeiro de 2004 os tempos efectuados passaram a ser reconhecidos como “recordes mundiais”, desde que as maratonas obedeçam às regras estabelecidas pela Federação Internacional de Atletismo. Até então, os tempos eram designados como “melhores marcas mundiais”.

Curiosamente, e face a estas regras, as marcas obtidas na maratona anual mais antiga (Maratona de Boston) e também considerada a mais rápida, não são consideradas como recordes uma vez que esta maratona não respeita a distância estabelecida entre as linhas de partida e chegada, nem o desnível máximo permitido no trajecto. Por isso, a “melhor marca mundial” efectuada pertence ao queniano Geoffrey Mutai, com 2h03m02s, precisamente efectuado em Boston em 2011; enquanto que o “recorde mundial” pertence também a um queniano, Wilson Kipsang, com 2h03m23s realizados na Maratona de Berlim de 2013.

Muitos foram anos em que as mulheres que queriam correr a maratona tiveram que fazê-lo extra-oficialmente, pois a primeira maratona feminina oficial apenas foi introduzida nos Campeonatos da Europa de Atletismo de 1982, em Atenas. Esta prova tem gratas recordações para os portugueses, pois a vencedora foi Rosa Mota que venceria também as duas edições seguintes, respectivamente em 1986 e 1990. Este “reinado” português viria a ser prolongado por Manuela Machado em 1994 e 1998, estabelecendo assim um período de 20 anos em que as campeãs europeias de Maratona foram sempre portuguesas.

A maratona feminina só foi introduzida nos Jogos Olímpicos em Los Angeles, em 1984, sagrando-se a americana Joan Benoit como a primeira campeã olímpica. O recorde mundial da Maratona pertence à britânica Paula Radcliffe, com o tempo de 2h15m25s, obtido na Maratona de Londres em 2003. O Recorde Olímpico é pertença da etíope Tiki Gelana, com o tempo de 2h23m07s, efectuado nos Jogos de Londres de 2012.

Desde os anos 1970 tem-se assistido a um autêntico “boom”, quer ao nível do número de provas realizadas, quer ao nível dos participantes, com maratonas a registarem dezenas de milhares de concorrentes de todas as idades e sexo, fazendo das provas autênticas festas populares em que a esmagadora maioria participa exclusivamente com objectivos.

Quanto a Portugal, além dos títulos já referidos, obtidos pelas nossas atletas nos Campeonatos da Europa de Atletismo, lembremos também o primeiro título olímpico para Portugal, obtido por Carlos Lopes nos Jogos de Los Angeles em 1984, com o tempo de 2h09m21s, na altura recorde olímpico, que se manteria por nada menos que seis Olimpíadas (espaço de tempo que medeia dois Jogos Olímpicos consecutivos), pois só viria a ser superado nos Jogos de Pequim em 2008. De referir também o recorde mundial obtido pelo mesmo Carlos Lopes na Maratona de Roterdão em 1985, os títulos olímpico e mundial de Rosa Mota, respectivamente nos Jogos de Seul em 1988 e nos Mundiais de Atletismo de Roma em 1987, o título mundial de Manuela Machado nos Mundiais de Gotemburgo em 1995 –  isto para apenas nos referirmos a títulos nas principais competições internacionais, pois várias são também as medalhas de prata e bronze obtidas nessas competições. Para nós portugueses a maratona tem sido fonte de imensas alegrias.

*Licenciado em Educação Física e treinador de futebol

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