O cinema e a comédia

Hélder Beja

A Feira Internacional de Macau arrancou ontem no Venetian. Este ano o cinema tem um destaque pouco habitual, que não deve ser alheio ao facto de ter terminado o prazo para a entrega de projectos de longa-metragem candidatos ao novo esquema de apoio lançado pelo Instituto Cultural. É um programa ambicioso que merece um renovado esforço para estimular o sector.

Os sinais, para o cinema do território, parecem positivos. Há mais produtoras, mais financiamento e mais gente a pegar em câmaras e a dar os primeiros passos no cinema. Há novas mostras – como o DocLisboa, trazido pelo Instituto Português do Oriente – e acontecimentos anuais que vão ganhando força, como o Video Art For All. Há projectos que continuam, como o Macau Stories, da Associação Audiovisual CUT, e o programa Macau – O Poder da Imagem, do Centro Cultural de Macau, ou os festivais de cinema e vídeo, e de animação, organizados pela mesma entidade.

O facto de que em Macau comece a tentar desenvolver-se uma indústria cinematográfica – como mais e melhores profissionais – terá sempre de estar ligado a uma intervenção governamental ao nível dos apoios. Não há mercado. Pouco ou nada acontecerá de outra maneira, mesmo com o empurrão dos privados. Parece que há vontade política de investir umas quantas patacas no cinema da região e isso, para os que vivem do cinema e fazem cinema, é valioso.

Acontece que, como em outras áreas, Macau começa a insinuar-se para quem o vê de fora como um lugar onde é possível conseguir dinheiros para projectos, agora na área do cinema. Até aqui tudo normal: há quem olhe para a RAEM, lhe veja potencial (espera-se que) artístico e de negócio (porque também de um negócio, ou de uma indústria, se trata) e decida vir fazer filmes para cá.

O cineasta português Leonel Vieira e a sua Stopline Films estão de volta ao território para participar na MIF e fazem parte desse grupo de interessados em Macau. Trata-se de um regresso, já que no ano passado Leonel Vieira esteve no território para tentar angariar apoios públicos para um filme ‘sobre’ Macau.

Desta vez Leonel Vieira disse que planeia abrir uma produtora audiovisual na cidade, uma filial da Stopline Films. “Queremos conhecer o mercado e pessoas. A médio prazo, isso vai levar-nos a abrir alguma empresa ou filial para produzir audiovisual, que é a nossa área. Sejam filmes, séries de televisão ou spots publicitários”, disse aos microfones da Rádio Macau.

Recordemos agora qual é o principal projecto que Vieira tem pensado para Macau, revelado no ano passado. Trata-se de um filme, com o título provisório “No Limit”, um “filme passado numa cidade, um pouco como o ‘Vicky Cristina Barcelona’, uma comédia romântica com aventura, em que a cidade é uma personagem”. A história é de amor entre um ocidental que está a surfar em Bali e que vem a Macau para um torneio de póquer. Vai daí, apaixona-se por “uma mulher da Ásia”. Coisas que acontecem.

O produtor e realizador português, autor de títulos com “Zona J” e “Arte de Roubar”, acha que Macau pode “transformar-se numa personagem” e para isso propõe a tal “comédia de aventura”. As filmagens, disse ontem, devem arrancar no próximo ano.

Na visão de Leonel Vieira, como vai este filme contribuir para Macau? “A intenção é Macau tirar um dividendo publicitário de comunicação no mundo, no Ocidente, na Europa, e nós, em contrapartida, termos um apoio financeiro por parte do território, para nos incentivar a fazer o filme aqui.”

Através do filme, já se vê, vamos ficar com “um conhecimento completo da cidade”, numa obra pensada “para o grande público”. Será contratado “um actor chinês muito famoso” para um dos papéis, mas haverá também uma indiana, um americano, um russo, um europeu e toda a gente falará inglês.

O guião, já se vê, “tem a cara de Macau” e em 2012 o realizador disse que está capaz de meter a palavra ‘Macau’ no título “No Limit”. Isto porque toda a gente sabe que em Macau “já se fizeram alguns [filmes] mas não há nenhum conhecido”. E porque, afinal, os filmes de Woody Allen sobre cidades europeias também têm os seus nomes no título. Logo, faz sentido.

Tem graça que seja o próprio Leonel Vieira a trazer à baila o exemplo de Allen, que recentemente também deu que falar em Portugal, por alegadamente o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Portas, ter conversado com o realizador nova-iorquino sobre a possibilidade de um filme sobre Lisboa, menina, moça e bem filmada. A bacoquice parece não ter limites.

Mas voltemos ao projecto de Vieira. Há coisas que unem e separam esta comparação com Woody Allen. O que as une é mau e o que as separa é, também, mau. Por um lado, a ideia é a mesma: um filme sobre uma cidade que terá, espera-se, uma certa projecção internacional e ‘venderá’ o lugar como destino e imaginário. Ora, não é de todo isto que faz falta ao cinema do território, como não faz falta ao cinema espanhol que viu aparecer “Vicky Cristina Barcelona”. O que os separa é que, enfim, há um mundo de diferenças entre o cinema (e o reconhecimento internacional) de Leonel Vieira e de Woody Allen.

Os decisores de Macau são evidentemente livres de embarcar nos projectos que entendam, financiando o que lhes parecer adequado. A população cá estará para julgar os resultados, confortavelmente sentada numa sala de cinema. Os que se sentirem defraudados poderão sempre tentar encontrar conforto no lema cultivado por Charles Chaplin: “A vida vista de perto é uma tragédia, mas vista de longe é uma comédia”.

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