A Arquitectura da Felicidade

Maria José de Freitas*

A arquitectura trará felicidade? Um tópico interessante que parece não preocupar as autoridades de Macau, pelo menos no que diz respeito ao planeamento da chamada habitação social.

Se analisarmos um pouco a história oficial da “habitação social”, disponível no site do Instituto da Habitação (www.ihm.gov.mo/pt) veremos que: “ (…) As habitações públicas de Macau tiveram origem na assistência e beneficência. Em Agosto de 1928, houve um grande incêndio, num antigo bairro social na zona de Toi San de Macau, que ficou destruído. No ano seguinte, o Governo reconstruiu um conjunto de habitações baixas neste mesmo local, e este tornou-se o primeiro bairro de habitação pública de Macau. Até 1949, já tinha construídos 23 blocos, com 711 fogos, continuando o Governo a construir várias habitações.”

E mais à frente: “ (…) A partir das décadas 60 e 70, o Governo oferece, em forma de arrendamento, habitações sociais de cinco a sete andares, às famílias de baixos rendimentos ou famílias com problemas sociais, processando várias reparações e reconstruções nestes bairros, a fim de prestar um bom ambiente residencial e melhores instalações públicas para satisfazer as necessidades das famílias.”

A história continua até aos nossos dias, pois ficamos a saber que nos anos 2012 a 2013 se planearam muitas unidades habitacionais e os números são eloquentes: “ (…) São as seguintes habitações sociais construídas durante este período: Habitação Social de Mong Há – Edifício Mong In – 346 fracções;
Habitação Social de Seac Pai Van – Edifício Lok Kuan – 4,672 fracções.”

Posta a situação desta forma aplaudimos o facto de o Governo de Macau estar atento às carências habitacionais da população mais desfavorecida e procurar dar resposta a essas falhas construindo habitações em grande número. Contudo, não podemos deixar de atentar nas circunstâncias em que estas construções aparecem.

Macau é uma cidade com uma densidade populacional elevada, em que o terreno para construir novas unidades escasseia, o ambiente está sobrecarregado, o ar, na maior parte dos dias irrespirável, acusa partículas em suspensão e os transportes não ajudam, deitando para o ar gases poluentes a que se tarda em por cobro.

Neste contexto, a necessidade de construir novas unidades habitacionais em número eloquente faz com que a atmosfera se sobrecarregue mais ainda, e a solução de recurso foi afectar à habitação social uma grande área disponível, à entrada da Ilha de Coloane.

Foi assim que a antiga pedreira de Seac Pai Van, já desactivada, e que cumpria o seu o papel de cenário, ou biombo, de um verde que se pretendia pulmão da cidade, recebeu ordem para que fosse demolido o que da pedreira ainda restava, passando a alojar habitação social em massa, qual passe de magia que transforma a antiga muralha de granito em novas muralhas de betão! São os reflexos e contradições de uma cidade em crescimento…

As torres habitacionais aí estão, alojando apartamentos em quantidades significativas, mas de reduzidas áreas para cumprir os números necessários às estatísticas. Ao visitá-las pudemos comprovar as minúsculas áreas habitacionais, a falta de privacidade entre as diversas unidades, os deficientes isolamentos acústico e térmico, os horizontes limitados e sem enquadramento possível.

Milhares de habitações aguardam novos inquilinos, mas voltando à questão inicial: uma arquitectura pensada em função dos números trará felicidade? E onde estão os índices qualitativos? Quem zela pela sua aferição?

Será que se pode viver condignamente em quartos de 7,5 metros quadrados? Salas de 10 ou mesmo 12 metros quadrados? Com distâncias entre paredes de 2,2 metros quadrados? Cozinhas de 4 metros quadrados?

E quanto às infra-estruturas – quem ponderou sobre a sua existência, ou não, em número suficiente? Apoio social para idosos, creches? Abastecimento? Mercado? Posto médico? Transportes públicos? E tudo o resto que compõe a vida urbana? O que sabemos disso?

Os equipamentos tardam em aparecer e o preenchimento da malha urbana vai-se fazendo a pouco e pouco, lemos nos jornais que muitas famílias recusam as unidades que lhes cabem em sorteio, aguardamos e vemos a evolução do gueto criado, sem deixar de reflectir sobre o que será viver num sítio destes, e qual o futuro das gerações que habitam estes espaços.

É então que nos lembramos da frase lida há bem pouco tempo: “… A crença no significado da arquitectura reside na noção de que, para o melhor e para o pior, em lugares diferentes somos pessoas diferentes e na convicção de que a tarefa de arquitectura é fazer-nos ver quem podíamos idealmente ser.” É de Alain de Botton, em “A arquitectura da felicidade”, editado pela Dom Quixote.

Como se pode ser diferente num sítio assim? Eis aqui o desafio que lançamos e que será importante no planeamento dos novos aterros para Macau.

 

*Arquitecta, Membro do ICOMOS. Ex-Coordenadora do Centro do Património Mundial de Sintra

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