Dia de lágrimas

Paulo Aido

 

Centenas de mortos. Era apenas mais um barco apinhado de gente que vinha de África com o sonho de chegar à Europa. Foi apenas mais um barco que naufragou. Aconteceu no final da semana passada. Perante a notícia trágica, o Papa Francisco falou num “dia de lágrimas”. O mar, agora, está mais salgado…

A história repete-se, vezes sem conta. Entre África e a Europa, entre a pobreza e o sonho de um mundo de abundância, fica o Mediterrâneo. Fica um mar que, por vezes, se torna madrasto, que se revela uma incógnita. As viagens fazem-se às escondidas, são pagas a peso de ouro e acontecem em barcos minúsculos para dezenas, centenas de pessoas. Só a miséria absoluta pode alimentar o sonho de uma viagem assim, aterradora, altamente improvável. É preciso imaginar a pobreza para se perceber a razão do quase suicídio. Já este mês, a Itália decretou luto nacional pela morte de centenas de pessoas num barco que transportava meio milhar de homens, mulheres e crianças que fugiam da pobreza. Morreram. Mal se soube da notícia e o Papa Francisco disse: “Hoje é um dia de lágrimas”.

Uma tragédia imensa

Nunca há coincidências. A sua primeira deslocação oficial como Sumo Pontífice foi a Lampedusa. Foi lá, logo no início do pontificado, a 8 de Julho, para assinalar esta tragédia imensa, para dar um sinal de que temos de nos preocupar mesmo com os que mais sofrem. Agora, este naufrágio veio reforçar as suas próprias palavras. Deu-lhes amplitude. Disse o Papa Francisco: “Ao mundo não importa se as pessoas devem fugir da escravidão, da fome, buscando a liberdade”, e criticou “o espírito mundano” que chamou de “lepra, cancro da sociedade, que mata a Igreja”.

Estatística manchada de sangue

Este naufrágio – apenas mais um, infelizmente – relançou o debate sobre a imigração ilegal e a Europa. Quando um barco assim se aproxima da Europa – e este naufragou a pouco mais de 500 metros da costa – deve ser visto como tendo a bordo imigrantes ilegais ou pessoas? É a diferença entre um olhar administrativo e um olhar humano. Os que morreram, na sua maioria eritreus e somalis, fazem agora parte de uma longa estatística. Longa e negra. Segundo a organização não-governamental Migreurop, com sede em Paris, nos últimos 20 anos, 17 mil imigrantes morreram ao tentar chegar à Europa.

Mundo sem fronteiras

Nós na Europa, mesmo nos países com economias mais débeis, como Portugal, somos vistos como privilegiados. E como é que nós, os privilegiados, olhamos para estes estrangeiros que dão tudo por tudo para conseguirem uma vida menos difícil? A geografia dos homens não chega ao céu. Para Deus não há cidadãos ricos e pobres, não há primeiro, nem segundo, nem terceiro mundo. Há pessoas. Neste mês, às portas de Itália, não morreram centenas de Somalis e Eritreus. Morreram homens, mulheres e crianças. Gente como nós. É por isso que as lágrimas de que fala o Papa Francisco nos dizem tanto…

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