Kiang Wu e esquizofrenia

Maria Caetano

 

A Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu está entre as organizações de Macau que, não havendo o estatuto específico de instituição de solidariedade social, goza da reputação de entidade caritativa que lhe permite receber doações avultadas – nomeadamente, de património imóvel – para que possa prosseguir com a sua obra social. Quem lhe concede património, certamente, vê na instituição uma via para a realização dessa mesma obra social e não um modo de contribuição para a acumulação de proventos de uma organização cuja acção não está limitada apenas aos fins de beneficência.

O que sucede contudo, hoje, nos moldes em que funciona o associativismo local e a organização das pessoas colectivas, é que, na prática, os negócios particulares do Kiang Wu  e dos seus associados não se distinguem da obra que cai sob o rótulo de beneficência que dá nome à associação que gere um hospital privado (com uma ala de internamento de luxo), uma escola, três templos e muito património particular pertencente a várias famílias de Macau – cinco, de acordo com os estatutos da organização, de 2010.

Uma entrevista ao presidente da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, Fong Chi Keong, publicada ontem pelo Jornal Tribuna de Macau, traz declarações que chocam com uma visão estrita da missão caritativa da organização. O também deputado explica que esta tem imóveis no mercado de arrendamento e que pretende conservá-los e valorizá-los, com consequente actualização de rendas e novos inquilinos. Serão mais de 300, na zona antiga do Bazar de Macau, e actualmente entregues ao pequeno comércio que por eles paga maquias mensais daquelas que já não se usam num cenário de especulação selvagem no centro da cidade. Os advogados do Kiang Wu escreveram cartas a avisar que é tempo de procurarem outras paragens.

Fong Chi Keong diz duas ou três coisas que chocam, mas que não estão exactamente erradas. A associação que dirige não tem a missão de salvar o comércio tradicional e há que zelar pela segurança dos edifícios antigos. Também a associação do Kiang Wu não pode estar sempre a ajudar as pessoas – especialmente, se essa atribuição está em conflito com outras missões desta instituição que, para o serviço social, recebe erário público e donativos e que, para a gestão dos seus negócios, se comporta com muita naturalidade como uma empresa.

O problema do Kiang Wu parece ser de facto o de uma esquizofrenia institucional. A associação não devia poder, como os seus estatutos determinam, fazer caridade e zelar por negócios ao mesmo tempo.  O conflito de interesses é por demais óbvio e devia estar limitado pela própria lei, quando esta diz que as associações “não têm por fim o lucro económico dos seus associados”.

O que o Kiang Wu precisa é de se constituir como empresa, naturalmente. Uma empresa com negócios nas áreas da saúde, da educação e no ramo imobiliário. E, como qualquer empresa, se quiser, pode assumir obrigações de responsabilidade social. O que não pode é fazer-se passar por uma organização sem fins lucrativos com uma missão de solidariedade social.

Até porque, como recentemente anunciou o presidente da instituição, esta pretende abrir centros de cuidados de idosos na ilha da Montanha, do lado de lá da fronteira, onde as regras actuais de liberalização económica apenas permitem que operem neste sector empresas privadas e não organizações não-governamentais. Para prestar serviço na província de Guangdong, o Kiang Wu terá à partida que assumir o seu rosto empresarial. De caminho, pode muito bem fazê-lo também em Macau.

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