Crónica de uma morte anunciada

Aparências

 

Indelicadeza a partir da reconstrução de um original de Gabriel García Marquez.

José Drummond

No dia em que iam matá-la, Coloane levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o sol com que se iniciava o dia. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se intoxicada. “Sonhávamos sempre com árvores”, dizia a mãe, Macau, recordando as décadas em que a filha era considerada o seu pulmão.

Coloane dormira pouco e mal, e acordou com dores de cabeça e com um sedimento de areia e metal na boca, e interpretou-os como estragos naturais causados pela farra da construção que se estendera até si, a partir do Cotai, lençol que a havia ligado à irmã Taipa. Apesar da brisa marinha de Hac Sa e Cheok Van era um tempo fúnebre, com um céu cinzento turvo e baixo e um ruído intenso a obras, coisa que nunca havia sentido em si mas que reconhecia nos segredos que Taipa lhe havia contado.

A última imagem que Macau guardava de Coloane era a de uma passagem fugaz pelos trilhos, quando eles ainda existiam e tentavam sobreviver. A Coloane dos sonhos de árvores e das praias naturais era como Macau dizia a querer recordar para sempre.

No entanto Macau casou de novo. As agora exageradas camadas de maquilhagem haviam transformado a Macau esquecida e colonial. E quase parecia ter renascido das cinzas, de rosto lavado e cheia de esperança. Que tanto prometiam esses novos anos que até mudou de nome. A verdade é que envelheceu muito mais naquela década e meia que nas centenas de anos anteriores, e tornou-se mais interesseira como nunca antes havia sido. Vivia num desencanto que as novas luzes de vaidade não conseguiam disfarçar.

Não havia forma de tentar proteger Coloane, com tantos estilhaços dispersos, no espelho quebrado da memória e na sofreguidão do sucesso rápido. De Macau mal se distinguiam as formas em plena luz, e a filha Coloane apresentava-se como uma eterna dor de cabeça.

Taipa, que sempre foi mais próxima da mãe, já não se reconhecia rodeada que estava de cães ofegantes. Coloane havia começado a ser mastigada quando esses cães já mal tinham como se alimentar da irmã. Macau tinha amado Coloane em segredo durante anos, mas quando se lhe acabou o afecto tornou-se bruta, e resolveu arrancar-lhe as entranhas e permitiu que os cães se lançassem às suas tripas.

Taipa precisou de poucos anos para perceber que Macau tinha-se transformado, e acostumou-se, indefesa, ao horror que lhe havia sido destinado pela mãe. “Santo Deus” exclamou assustada na manhã do crime. Queria ter acreditado que a Mãe protegeria a irmã Coloane. Que a deixaria intacta. Que a iria conservar de corpo inteiro. Que iria conservar o acesso natural e as linhas que uniam as árvores aos trilhos e às praias e à vila.

No entanto, foi por ali, pelo acesso natural, que esperavam Coloane os homens que iam matá-la, numa combinação formulada pela mãe. Ninguém podia compreender tantas coincidências funestas. Macau, deve tê-las sentido sem se atrever a admiti-las, pois o seu interesse em arranjar para elas uma explicação racional era evidente e não convenceu. E o modo fatal como tudo se passou foi digno de um folhetim.

Taipa, por seu turno, foi terminante ao responder que não sabia que alguém estivesse à espera de Coloane para matá-la. Mas com o correr dos anos admitiu que sabia disso. Sentia-o na pele e fora-lhe dito por um dos cães esfomeados, que lhe revelou, além disso, os motivos e o lugar onde iriam começar o assassínio. “Não a avisei porque pensei que era palavreado de bêbado”, disse defendendo-se.

Campus, filho de Taipa, confessou porém que a mãe não tinha dito nada a Coloane porque no fundo da alma queria que a matassem. Já ele, Campus , não a avisou porque não passava então de uma rapazinho assustado, incapaz de uma decisão própria, e assustara-se ainda mais quando a avó Macau o agarrou pelo pulso com uma mão que sentiu gelada e pétrea.

Alguém que nunca foi identificado tinha deixado um sobrescrito, no qual Coloane era avisada de que estavam à sua espera para matá-la, e lhe revelavam além disso o lugar e os motivos, e outros pormenores bastante precisos de confabulação. A mensagem estava no ar mas Coloane não a viu, nem a viu Campus, nem a viu ninguém até muito depois de o crime ser consumado.

No dia em que a mataram, Coloane ainda conseguiu enfrentar de mãos limpas os seus inimigos. Ergueu a mão para aparar o primeiro golpe, que a atacou pelo flanco direito com uma construção na perpendicular.

– Filhos da puta! – gritou. A construção atravessou-lhe a alma, e mergulhou de imediato até ao fundo do costado.

O construtor puxou os guindastes para fora com o seu pulso rude de magarefe, e assestou-lhe um segundo golpe na zona do estomago. Coloane torceu-se com os braços cruzados sobre o ventre depois da terceira construção, soltou um gemido, e tentou virar-se de costas. Outro construtor postado à sua esquerda assestou-lhe então uma construção no lombo, e um jacto de poluição a alta pressão encharcou-lhe o ar. Três vezes ferida de morte, Coloane enfrentou-os novamente, e apoiou-se de costas, sem a menor resistência, como se quisesse tão-só ajudá-los a acabar com ela em partes iguais.

“Não voltou a gritar”, disse o construtor a Macau. “Pelo contrário: pareceu-me a mim que se ria.” Continuaram a esfaqueá-la, com golpes alternados e fáceis, flutuando no remanso deslumbrante que encontraram do outro lado do medo. Desesperado, o construtor deu-lhe um talho horizontal no ventre, e os intestinos afloraram com uma explosão. O outro construtor ia a fazer o mesmo, mas o pulso torceu-se-lhe de horror, e então deu-lhe um talho extraviado na coxa. Coloane ficou ainda um instante apoiada, até que viu as suas próprias vísceras ao sol, e caiu de joelhos.

Levantou-se de lado, e começou a andar num estado de alucinação, caminhava com a altivez de sempre, medindo bem os passos, com os caracóis revoltos. A tia Zhuhai estava, do outro lado do rio, e viu-a.

– Coloane – gritou -, que tens tu?

Coloane reconheceu-a.

– Mataram-me, tia Zhuhai – disse ela.

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