Nem mesmo com muita fé

Paulo Rego

Xi Jinping é de facto surpreendente. De repente, enterra a hierarquia e a autoridade do confucionismo e venera a fé budista e a alma taoista como instrumentos essenciais no combate à corrupção e aos desequilíbrios provocados pelo crescimento económico desenfreado. Diz o presidente do império comunista capitalista: Já não há valores colectivos e, assim sendo, a China está fora de controlo. Dir-se-ia o mesmo dos limites perversos do individualismo ocidental, mas é curioso que a discussão se ponha, aqui e agora, nestes termos.

Não é nesta altura ainda óbvio se o novo líder está a tentar contornar o poder desmesurado das chefias militares, dos gestores dos monopólios estatais e dos caciques regionais; ou se anda à procura de um discurso que pacifique o descontentamento popular. Muito provavelmente ambas as coisas estão em causa. A verdade é que para além da necessidade de limpar a casa, o enriquecimento das classes dirigentes deu demasiado nas vistas através da proliferação de carros de luxo e das festas sumptuosas. A consciência colectiva finalmente percebeu que a explosão do PIB, nas duas últimas décadas, não tem qualquer correspondência com a redistribuição do rendimento.

No ano passado, o Global Times elaborou um estudo de opinião através do qual anunciou índices de pré-ruptura social. Perante o sinal de alarme, o director do jornal estatal proibiu a divulgação dos resultados, mas acabou por ser pressionado pelo seu núcleo duro a divulgá-lo, embora apenas na edição digital em língua inglesa. Ou seja, apesar da censura e da ditadura de partido único, o monolitismo também já passou à história.

Contado recentemente em Macau por um colunista do Global Times e consultor do governo chinês, este episódio tem um desfecho ainda mais relevante. Xi Jinping, na altura ainda não nomeado mas já apontado como futuro líder do país, mandou chamar os autores do estudo; não para confrontá-los com a ira do poder, mas sim para que explicassem o que estava verdadeiramente a minar a confiança do povo na liderança comunista.

Nesse contexto, foi estudada e qualificada a estratégia de eleger o combate à corrupção como linha de força do seu mandato. Mas é também esclarecedor que tão cedo deite a toalha ao chão e clame pela fé em valores que o PCC sempre encarou como concorrentes de uma ideia de virtude e de legitimação do exercício do poder.

O novo discurso de Xi Jinping é poderoso e diz bem das intenções de quem o profere. Mas não são bons os augúrios que anuncia. Primeiro, porque revela que o poder terreno e confucionista do chefe supremo do partido, do exército e do país, pouco ou nada pode contra os tentáculos da realidade. Depois, porque nem ele próprio acreditará que os donos do poder se ajoelhem perante Buda – ou recitem Tao – para salvar alma do comunismo e o corpo do regime. Nem mesmo com toda a fé do mundo.

 

Sinais de fumo na aldeia

 

Já há muito se sabe que os autocarros são um alvo mais frágil da ira de uma população que sente cada vez mais dificuldades em deslocar-se; entupida pelos turistas quando anda a pé, paralisada ao volante de carros que já não cabem nas ruas, desesperada à espera de táxis que passam e não param. De resto, não têm o hábito nem a coragem de dizer mal de tantas outras dores que sente na alma e na carteira. Também é verdade que são muitas e legítimas as razões de queixa dos concessionários do serviço de autocarros, como é extenso o rol de incumprimentos denunciado pelo Comissariado da Auditoria. O que talvez poucos saibam é que no campo das falhas contratuais, mas também da qualidade do serviço ou até do número de acidentes, a Reolian não é muito pior do que TCM ou a Transmac. Então porque é que a única das três que vem de longe é encostada à parede e asfixiada do ponto de vista financeiro, enquanto que as outras beneficiam da tolerância do Governo, que parece confiar num futuro melhor?
A saída extemporânea de Susana Chou da companhia de capital francês, já à bica do drama, deixou adivinhar o que aí vinha. Estaria zangada com os franceses? Ou com o Executivo? Lá bem informada parece que estava… Suspeito que quando se souber quem ficará com a parte que cabia à antiga presidente da Assembleia Legislativa far-se-á luz sobre o destino próximo deste concessionário. Se um terceiro operador, quiçá vindo do Continente, ou os dois concorrentes que ficam beneficiam dos investimentos, do equipamento e das carreiras agora abandonadas, como rapidamente vieram defender algumas associações tradicionais.

Esse é um debate que fica para outras núpcias. Para já, a falência em Macau do gigante gaulês – entre várias outras operações de monta, gere o metropolitano de Paris e tem vários interesses na China, pelo que não é propriamente um escritório de vão de escada – é um péssimo sinal para os níveis de confiança dos investidores estrangeiros. Independentemente das razões que se possam acenar, a retirada da concessão à única empresa estrangeira no sector dos transportes públicos, que temporariamente cai no colo da intervenção estatal, mostra que o capital que vem de fora não tem condições de livre concorrência com os interesses geridos pela oligarquia local.

Restam talvez os tribunais, onde se espera para ver se a independência do poder judicial terá capacidade de ressarcir pelo menos em parte os avultados prejuízos entretanto acumulados. Mas mesmo que isso se verifique, em nada resolve a questão de fundo que é a das consequências negativas que este desfecho tem na percepção de insegurança que certamente hoje vinga nos mercados internacionais. Qualquer investidor que analise este caso depressa conclui que se não tendo guanxi local ou o músculo da Mãe Pátria melhor será investir em mercados mais seguros, não se meter em águas onde pairam os tubarões da terra.

Repito: Não questiono as deficiências da Reolian, que existem, mas sim o tratamento desigual de que foi alvo em relação aos outros dois concessionários. A TCM chegou mesmo tarde e a más horas ao concurso, como terceiro concorrente num jogo no qual, aparentemente, deviam ter entrado apenas dois apostadores. Mas lá conseguiu meter os papéis fora de horas, como em Macau só é capaz de fazer quem pode – e não quem quer. Finalmente, a própria Reolian percebeu, depois de uma luta desigual, que era ela entre as três aquela que estava a mais, a atrapalhar o negócio que fazem com o erário público.

Haja as questões que houver, a forma como o Governo congelou as transferências que lhe cabiam adensa a percepção de que houve um total desinvestimento na lógica de internacionalização de Macau e na protecção da ideia de vir a atrair mais capital estrangeiro. Porque ninguém está disponível para alocar capital que se perde pela pressão cúmplice e explícita do próprio contratante, que criou todas as condições e mais algumas para afastar o contratado.

Na lógica da política local, é fácil contentar os barões da terra e gerir o sentir popular, espalhando a demagogia de que o Executivo agiu a pensar no povo e ouviu as suas queixas, que aliás fazem parte de uma longa campanha que transformou a Reolian no bode expiatório dos erros da política de transportes públicos. Mas do ponto de vista da imagem internacional do território o sinal é claramente negativo. O que demonstra, pesados uns e outros argumentos, quais foram aqueles que conduziram o Governo neste caso.

Há muitas outras consequências de monta, em sectores bem mais sensíveis do ponto de vista da economia local. Se a moda pega, os casinos norte-americanos bem podem começar a pôr-se a pau no que toca à renovação das concessões de jogo.

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