O incontornável e incontrolável momento de Jesus

Pedro Cortés* 

“Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram.  Eis que a casa de vocês ficará deserta. Pois eu lhes digo que vocês não me verão mais, até que digam: ‘Bendito é o que vem em nome do Senhor”

Mt. 23.37-39

Estas ‘cousas’ do Benfica e do circo mediático que consigo oneram deixam tudo em polvorosa no reino dos fariseus.

A postura de Jorge Jesus no final do jogo da sua equipa e do meu querido clube contra o Vitória de Guimarães foi deplorável, inaceitável, inconcebível, pelo menos aos olhos de alguns – se calhar poucos – nos quais me incluo.

Em momentos lúcidos de Benfiquismo – os que sofrem desta doença tão pulcra e bela também os têm amiúde – chego ao perfazimento de que se a alma do Cosme Damião encarnasse e voltasse à terra, muitos dos que acreditam cegamente naquilo que lhes servem ‘circensemente’ nos jornais, revistas e programas de televisão, eram capazes de ficar a pensar que ser do Benfica não é para eles, porquanto contribuem para a ‘portificação’ do Sport Lisboa e Benfica.

Passo a explicar para os mais desatentos do fenómeno da bola.

Desde há uns anos, a ideia estratégica dos dirigentes daquele que é considerado pelo Guiness Book of Records como o maior clube do mundo – quem sou eu para contrariar esta instituição! – parece ser a de lutar com as mesmas armas de um clube que respeito muito – respeitar um adversário não significa concordar com as práticas criminosas dos seus dirigentes – e que tem a hegemonia do futebol em Portugal, o Futebol Clube do Porto.

Quer parecer-me que só faltam produtos frutícolas e a bebida que se produz a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro para que o ramalhete se complete.

De resto temos tido de tudo: agressões a jornalistas, a polícias, a jogadores de outros clubes, clima intimidatório no túnel, petardos, corte de energia, rega… enfim, todo um tipo de acções que fez e faz escola ali junto à Ponte do Freixo.

Só que com uma pequena grande diferença: sem títulos de remonta, apesar dos momentos ‘muy lindos’ que proporcionam aos seus adeptos.

O Benfica e os Benfiquistas carecem de reflectir se é esta a melhor forma de combater um sistema enraizado há três décadas no panorama do pontapé na bola em Portugal. Ou, ao invés, tentar usar da inteligência para combater o arqui-rival. Conhecer-lhe os podres – que, ao cabo e ao resto, todos conhecemos – e lutar contra eles através daquilo que sempre distinguiu a associação criada pelo Senhor Cosme Damião: a paixão genuína, a força da massa associativa e o respeito por todos os rivais que estão espelhados no seu lema: ‘E Pluribus Unum’.

Jorge Jesus, já o demonstrou, é um grande treinador de futebol. E, até ver, é para isso que é pago principescamente. Não é para defender adeptos (?) que saltaram para dentro do campo em clara violação da lei, por muito que o uso da violência por parte da polícia a norte do Mondego seja uma constante. Não é para mostrar quatro dedos ao Manuel Machado por muito que isso galvanize a massa adepta. Não é para fazer com que o ódio ao Benfica seja cada dia maior.

Sim, há o Benfica e o Anti-Benfica. Há o Benfiquismo e o Anti-Benfiquismo, nas suas diversas formas e feitios: primário, secundário, ‘lagartário’ e ‘portuário’. A grandeza tem destas coisas. Mas a grandeza não deve significar arrogância nem malcriadez. Deve significar respeito e compaixão para com os fariseus. Para com aqueles que invejam tudo aquilo que diz respeito ao meu querido Clube e que passam o dia a falar da maior criação da Humanidade desde o pão, o queijo, o presunto e o vinho: o Sport Lisboa e Benfica. Para com os verdadeiros adversários: Sportinguistas e Portistas de gema que não se revêem em muitas das atitudes dos seus dirigentes e adeptos e que não querem apenas o mal do rival.

Temo que seja tarde para parar esse processo degenerativo da identidade da minha manufactura diária de sonhos. E que, daqui a uns anos, o processo de ‘portificação’ esteja definitivamente terminado. Só espero que, pelo menos, seja com títulos. Mas não a todo o custo. Porque, ao contrário dos cegos que só vêem virtudes no reino do dragão, eu não quero que o clube de que sou sócio há mais de 27 anos ganhe a qualquer custo. Quero que ganhe no campo, sem erros grosseiros de arbitragem, respeitando o adversário e, já agora, como é muito caro ao carismático treinador: com nota artística acentuada.

*Advogado

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