Inteligência é sexy

Cláudia Aranda

 

O filme “Jobs” estreou em Hong Kong e em Macau dia 19 de Setembro, um dia antes da Apple fazer um mega-lançamento mundial dos dois novos modelos do iPhone, o 5S e o 5C. Pela primeira vez a marca de computadores criada por Steve Jobs e Steve Wozniak em 1976, pôs à venda, no mesmo dia, novas versões do iPhone, nos Estados Unidos, Austrália, Canadá, em França, Reino Unido e Alemanha, Japão,  Singapura, China e em Hong Kong. Macau ficou de fora de toda esta megaoperação de vendas da Apple. Entretanto, no resto da China, fizeram-se filas à porta da loja da Apple em Pequim e em Hong Kong. Sexta-feira, 20 de Setembro, feriado nacional na China, foi o primeiro dia destinado ao levantamento das encomendas para os que tinham feito o pedido online. Na loja do centro comercial IFC, na baixa de Hong Kong, empregados vestidos com t-shirts de cor azul batiam palmas de cada vez que um cliente entrava para receber e pagar a caixinha contendo um dos novos modelos do iPhone 5. Uma grande maioria de público, no entanto, limitava-se a ver e manusear os aparelhos em exposição na loja. Outros como eu, optaram por ir ver o filme, “Jobs”. Ou melhor, ir ver o actor Ashton Kutcher, a encarnar o Steve Jobs. Consta que o ex-modelo e ex-marido de Demi Moore – conhecido pelos papéis de “male bimbo”, ou seja, rapaz bonito mas meio tonto, num rol de filmes e de séries de TV (incluindo “Dois Homens e Meio”) – deu tudo por tudo para convencer o realizador Joshua Michael Stern a dar-lhe este papel. O actor de 35 anos fez a dieta à base de fruta de Steve Jobs, para perceber o grau de disciplina que Jobs se impunha a si mesmo, estudou durante horas os maneirismos de Steve, emergiu totalmente no personagem. Kutcher queria honrar o seu ídolo, Steve Jobs, encarnando-o da forma o mais fiel e honesta possível.  Além disso, Kutcher é parecido fisicamente com Jobs.  E depois de uma vida inteira a fazer papéis de “male bimbo“, eis que Kutcher anunciou a uma multidão de adolescentes, na altura do lançamento do filme nos Estados Unidos, que “ser inteligente é sexy”, agitando blogues e imprensa americana. O filme arranca com um Ashton Kutcher/Steve Jobs mais velho, de barba grisalha, olhar fixo, penetrante, uma versão bastante realista de Jobs (a ver pelo manancial de fotos disponível na Internet ) no momento do lançamento do iPod, em 2001, na Apple Town Hall Meeting. Kutcher/Jobs consegue convencer e arrebatar a atenção do público desde logo.  Kutcher imita o andar desajeitado de Jobs, sabe colocar o olhar sonhador e visionário do jovem hippie que regressa de uma viagem à Índia. Mas, também, sabe adoptar uma postura mais calculista e avaliadora, à medida que o enredo se vai desenvolvendo. A representação parece muito próxima da imagem que se poderá ter do homem que ajudou a desenvolver a linha de computadores Mac e os conceitos iPod, iPad, iTunes. O problema está mesmo no argumento, com demasiados clichés. O filme mostra desde o génio ao canalha que havia em Jobs, um sonhador com ideias brilhantes, que sabe como convencer e vender os seus projectos, que engana os amigos se for preciso e rejeita a paternidade da primeira filha.  O filme começa em estilo épico a contar os primeiros dias de Jobs e amigos a montar protótipos na garagem dos pais adoptivos, o momento em que Jobs encontra o nome “Apple” para a empresa, a viagem à Índia. A partir daí, quando a maçã se torna um símbolo icónico da tecnologia de vanguarda, o filme entra em modo de narrativa acelerada exibindo um mini-resumo da vida de Steve Jobs, os fracassos, os sucessos, o casamento, a readopção da filha renegada, a expulsão e reintegração na Apple sem que se perceba muito bem quem foi o homem por trás do ícone. Faltou conhecer o lado espiritual do sujeito inteligente, seguidor de Budismo Zen, que lhe deu a habilidade para comunicar com o consumidor, cruzando linguagens, espiritualismo e tecnologia, para criar uma filosofia e uma iconografia, associada a toda a tecnologia Apple. Entretanto, ainda não há notícias sobre quando as novas versões do iPhone 5 vão poder ser adquiridas nos revendedores da marca em Macau. Mas, encaremos este desprendimento da Apple em relação aos consumidores de Macau como um factor positivo. Podemos ser pragmáticos e, desta vez, resistir às campanhas de marketing. Ter inteligência é bem mais sexy, palavras de Ashton Kutcher.

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