E o inglês em Macau?

Ana Paula Dias*

Praticamente todos os dias surgem notícias nos vários meios de comunicação social sobre a vitalidade do português: ora são cursos que abrem e universidades que passam a disponibilizar a opção de estudar a língua, ora cresce exponencialmente o número de alunos interessados, ora é o domínio deste idioma que vai abrir novos mercados à China, com Macau a servir de “plataforma”. Não posso, no entanto, deixar de pensar num excelente artigo intitulado “Um Macau ”Imaginado” em língua portuguesa”[1], no qual a objetividade e lucidez da autora traçam um retrato bem mais realista do panorama do português em Macau  do que a euforia das notícias faria supor.

Mas não é a situação do português que pretendo aqui abordar e sim a do inglês. Com efeito, os dados dos Censos de 2011 revelaram que, quanto ao domínio de outras línguas para além da língua materna, 41,4 por cento da população de Macau falava mandarim (representando mais 14,7 pontos percentuais em comparação com 2001), enquanto 21,1 por cento falava inglês e 2,4 por cento português.

Vários fatores contribuem para que o inglês tenha esta expressão no território. Timothy Simpson, investigador da área do urbanismo comparativo, fornece pistas importantes para a compreensão da especificidade de Macau, que refere como “the oldest European colony in Asia recently reunited with China’s pos-Maoist, market-socialist economy”[2]. Salienta que se trata de uma cidade que não produz nada de tangível, para além do ambiente construído, desenhado com o objetivo de atrair turistas não-locais e internacionais. Estes cerca 30 quilómetros quadrados são a região mais densamente povoada do mundo e, de acordo com os dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos de Macau, depende quase exclusivamente do consumo efectuado pelos turistas, em actividades relacionadas com jogo, compras, passeios turísticos e lazer. Acrescenta Simpson que a viabilidade económica de Macau depende totalmente dos visitantes temporários, dos turistas e dos trabalhadores migrantes que asseguram os variados serviços turísticos.

É neste contexto que os trabalhadores filipinos predominam em Macau, ascendendo o seu número a cerca de 20 mil. São o maior grupo de estrangeiros não-chineses no território e o grupo que detém as habilitações mais elevadas e a menor taxa de analfabetismo. É precisamente o seu domínio da língua inglesa, a sua disposição para a adaptação intercultural e a sua capacidade para comunicar numa língua internacional que lhes assegura trabalho fora do seu país, nomeadamente em Hong Kong e em Macau. A sua estabilidade advém da sua flexibilidade laboral e adaptabilidade linguística; é frequente deparar com pessoas de nacionalidade filipina a trabalhar em áreas muito diversas das da sua formação inicial.

Manuel Noronha e Ian Chaplin, investigadores da Universidade de Macau, referem que os filipinos são uma parte significativa da força laboral de Macau e que as mulheres filipinas, maioritariamente empregadas domésticas, são escolhidas por famílias chinesas e portuguesas, precisamente pela sua capacidade de comunicação intercultural e domínio do inglês. Muitas trabalham como amas e são “important Englisg language providers”  em Hong Kong e Macau.

No entanto, como os turistas que visitam Macau são sobretudo chineses e asiáticos, o domínio de línguas estrangeiras por parte dos residentes e dos trabalhadores locais não é sentido como essencial. Enquanto que a proficiência bilingue inglês-chinês é entendida como uma mais valia em termos educacionais e profissionais em Hong Kong, esta visão não se reflete na oferta do sistema educativo local, pois desde que se verificou a expansão da indústria dos casinos (cujo alvo é maioritariamente a China Continental) a proficiência em chinês é a mais valorizada pelo mercado de trabalho. Um inquérito recente ao mercado de trabalho dos casinos revelou que 88,8 por cento dos anúncios de emprego referenciavam como condição de selecção o domínio do chinês e apenas 54,5 por cento o inglês.

Não obstante, o inglês é a língua utilizada no sector do turismo para comunicar com estrangeiros não falantes de chinês, sendo por isso associado a necessidades de trabalho; é usado na hotelaria, na banca e até no setor público, para facilitar a comunicação intercutural. Os empregadores recorrem frequentemente a trabalhadores não-chineses que dominem inglês e há um número significativo de minorias étnicas a desempenhar funções não-qualificadas e qualificadas que implicam o conhecimento desta língua.

Também Denise Pacheco[3] a este propósito refere que a complexidade do território é cada vez mais acentuada em função do acelerado crescimento da indústria do turismo, que provocou, em consequência, um aumento de imigrantes. Neste contexto plurilingue existe o reconhecimento público da importância do inglês como língua de sobrevivência e de trabalho, mas apesar do grande avanço no sector turístico, a proficiência de grande parte da população no inglês não é ainda a desejável, facto facilmente constatável quando se tenta falá-lo na região.

Apesar de tudo, o processo afigura-se irreversível, tendo em conta o estatuto da língua no cenário internacional. O inglês tem vindo a ser usado como língua veicular internacional em diversas instituições locais, durante reuniões e eventos realizados em vários estabelecimentos de ensino; funciona, a par do chinês, como língua “oficial” de trabalho na comunicação oral e escrita nessas instituições.

Como Sheldon Shaeffer, diretor do Gabinete Regional da UNESCO para a Educação na Ásia e Pacífico destacou “Language is the key to learning. It is woven into the fabric of individual and group identity. Who we are is intimately linked with the language or languages we speak. Research demonstrates many cognitive advantages to those people who speak more than one language. Language diversity, then, is one of the world’s great human resources.”

No caso de Macau, onde o chinês e o português são línguas oficiais e onde a população fala maioritariamente cantonês, sendo o mandarim (não obstante o seu estatuto de língua oficial na Repúblicas Popular da China) a língua segunda mais falada e o português apenas falado por 4 por cento da população, esta aprendizagem reveste-se de especial importância – porque embora a língua chinesa seja a mais falada no planeta, não é a mais difundida, encontrando-se confinada a um espaço geográfico específico, para além de ter um sistema de escrita logográfico, o que coloca óbvias limitações à comunicação além fronteiras.

Veja-se o caso dos filipinos…

 

*Investigadora da Universidade Aberta

(A autora escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico) 

[1] Cristina Água-Mel.

[2]  “Macao, capital of the 21st century?”, 2008.

[3] Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Difusão da língua portuguesa, no 39.

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