Contas trocadas

Inês Santinhos Gonçalves

Os maus resultados eleitorais da Associação Novo Macau geraram já um consenso de que a divisão em três listas foi um erro. Discordo: foi uma má opção se olharmos unicamente para os números, mas em termos ideológicos, a divisão era a única opção possível. Pelo menos a única que preservava a honestidade política dos candidatos.

A plataforma criada por Jason Chao trouxe novos temas para cima da mesa. É verdade que o grupo que compunha os Liberais da Nova Macau tem muitos pontos de contacto com Ng Kuok Cheong, sempre mais virado para as questões dos direitos fundamentais do que Au Kam San. No último ano vimos Ng alterar o discurso em relação aos trabalhadores migrantes – pelo menos junto da imprensa em português – o que o aproximou de Chao. Mas num ponto nunca concordariam: os direitos LGBT.

Não seria de esperar que Ng, Au ou Chan Wai Chi se opusessem publicamente às posições de Chao, mas nunca os veríamos a abraçar a causa em campanha eleitoral. Jason Chao só poderia concorrer à Assembleia com uma das duas listas se nunca trouxesse o assunto para cima da mesa. E isso seria de um terrível calculismo político.

O presidente da Novo Macau fez bem em trazer a discussão sobre direitos dos homossexuais para a esfera pública. Fez bem em assumir publicamente a sua orientação sexual e em impulsionar a criação da primeira associação de promoção dos direitos LGBT. Não considero que esse foi o seu maior contributo para a política local, mas foi certamente dos mais relevantes e não devia ser comprometido em troca de votos.

Seria bom ter mais uma voz discordante na Assembleia. Mas Jason Chao já disse que não está à procura de um emprego e que se vê mais como um activista do que um deputado. Que siga o seu caminho.

Já as campanhas discretas de Au e Ng, possivelmente para dar espaço e visibilidade a Chao, terão sido um erro. As três apelavam a eleitorados diferentes que não deviam ter sido descurados.

No geral, a Novo Macau tem pouca visibilidade nos meios de comunicação chineses, principalmente quando abordam questões políticas sensíveis. Apesar de os três deputados terem sido razoavelmente activos na Assembleia, nem sempre têm espaço equivalente nos jornais e na televisão. E assumindo que muitos dos seus potenciais eleitores não dominam as novas tecnologias, teria sido importante manterem uma voz activa durante a campanha.

A Novo Macau sofreu uma pesada derrota, é certo. Mas pelo menos manteve-se fiel à sua natureza. Os votos que recebeu são certamente fruto de convicção e não dependeram de motorista.

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