Uma pergunta para “Os Maias”?

Fernanda Gil Costa*

 

Pode parecer inútil insistir na ideia de que o romance “Os Maias”, de Eça de Queirós, é uma das obras mais importantes da literatura portuguesa e, seguramente, um dos romances mais reconhecidos e lidos da língua portuguesa. Para isso contribuem muitos factores: a grandiosidade (uma história que se estende por três gerações, exaltando um dos modelos em que o romance mais se distinguiu, como forma específica), a representatividade face a Portugal (as personagens aludem claramente a momentos cruciais da historia portuguesa, funcionando de forma simbólica apesar da sua complexidade) e o estilo inovador (a admirável técnica narrativa, a diversidade discursiva e retórica).

Vem esta reflexão a propósito da recente publicação de uma versão de bolso do romance, oferecida aos leitores do Expresso, o semanário mais lido e de vida mais longa da imprensa portuguesa recente, bem como a encomenda /convite de ‘continuações’ do romance a vários escritores contemporâneos da língua portuguesa. A ideia que visou comemorar em conjunto os 125 anos da publicação do romance a os 40 anos de vida do semanário Expresso é curiosa e produtiva. Por isso, talvez seja exagerado o azedume de alguns críticos da imprensa escrita e da blogosfera contra os  resultados, que consideram descabidos, inesperados (desesperados?), literalmente intempestivos. Independentemente do valor que a crítica lhes atribua, justo ou injusto (os contributos são naturalmente diversos, de valor distinto) as referidas ‘continuações’ fazem prova da longevidade do romance de Eça (o que é também o que se pretende testemunhar), da sua força interpelativa junto do leitor, e constituem ainda  subsídios valiosos para a história da sua recepção.

Podemos comparar a perplexidade e o desapontamento de alguns leitores das ‘encomendas’ para a continuação de “Os Maias” com a decepção que quase sempre nos assalta quando no cinema assistimos a adaptações de obras literárias previamente lidas. Na verdade, imaginámos quase sempre um ritmo e uma figuração diferentes, ressentimos os cortes, as simplificações e esquecemos as vicissitudes da tradução, a dialéctica entre perda e ganho no transporte entre linguagens de diferentes meios de comunicação. A propósito, quem assistiu à última adaptação de “Anna Karenina”, ou ao último “The Great Gatsby”? Porém, as obras verdadeiramente desafiadoras não devem estacionar de pó limpo e capa encerada na  estante, à espera de beata e incerta visita dominical.

Uma das maneiras mais produtivas de lidar com o passado é aceitar a sua celebração pelo desafio e pela chamada ao presente. Não apenas porque isso causa polémica e agitação, mas porque obriga à sistematização dos argumentos e à abertura mental diante de um mundo de invenção, quase realizado. Interpelar é também uma forma de responder.

Os teorizadores da chamada estética da recepção valorizaram na arte e na literatura o facto de elas se completarem no destinatário e no intérprete activo. Por isso falaram, na esteira do filósofo Georg Gadamer (discípulo de Heidegger e autor de “Verdade e Método”, considerado o maior hermeneuta do século XX), do horizonte de expectativas da obra e da necessária dialéctica entre pergunta e resposta, cabendo à obra dar respostas a quem a solicita e ao intérprete procurá-las. Ora, se uma obra tem um horizonte de expectativas que é, naturalmente, o do seu tempo de escrita (o tempo de Eça, neste caso), a leitura activa de “Os Maias” implicará deslocar o romance para o horizonte da leitura (o nosso, neste caso) e responder com ele às perguntas contemporâneas que lhe digam respeito. As ‘continuações’ de “Os Maias” são, neste contexto, formas hábeis de manter acordada a sua inquirição e realizar uma fusão de horizontes de expectativas da obra e dos leitores actuais.

Além disso, a obra de arte é uma ‘invenção de mundo’ (a ‘worldmaking’ de que fala Nelson Goodmann) que fica perto da realização quando a assumimos e ‘lemos’, quando falamos de Carlos da Maia ou de Ema Bovary como se tivessem existido, como se existissem. A ideia de que o mundo poderia (poderá?) ser diferente, torna a arte imperecível, inevitável (ainda que alguns não entendam isso) e sempre ‘perigosa’, transformadora, pois só ela responde de facto à vontade de imaginar, de tornar o mundo outro.

A sequência natural do romance “Os Maias” pode ter origem, afinal, no próprio romance, no seu  último capítulo. O autor abandona as duas personagens principais no momento indeciso de um destino que não quer ironicamente resolver (será toda a história sobre Portugal e os portugueses?). Correr atrás do ‘americano’ ou deixá-lo ir, em sinal de submissão ao tal ”fatalismo muçulmano” que parece atrair o último Maia no regresso a Lisboa, depois da viagem pelo mundo que começa pela China, e de dez anos de vida improdutiva e perdulária em Paris, é muito mais do que um desenlace irónico e um pouco petulante de “vencidos da vida”; é uma inquirição adiada e uma aposta em quem ‘lê’.

 

*Professora universitária, Universidade de Macau

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