Pequenos e separados

Hélder Beja

 

1. Domingo, na Fundação Rui Cunha, durante o debate eleitoral organizado por este jornal, uma cientista política anglófona e ocidental comentava à margem da discussão que, em Macau, tem a sensação de que o cidadão comum não se considera parte de um sistema que, em última análise, poderá levá-lo a ser representante dos seus pares na esfera política. Dizia ela que sente que para o cidadão de Macau existem as pessoas de todos os dias e, depois, noutro patamar, existem os políticos. Outra pessoa referia que o voto em consciência, o voto enquanto dever cívico e individual, parece não existir.

Eram leituras prévias à saída dos resultados das eleições para a Assembleia Legislativa e têm, agora, o mesmo valor: o de uma análise de quem, por fora, faz por perceber a intrincada engenharia política do território.

Os resultados do sufrágio mostram a força das estruturas existentes e estabelecidas, o poder das máquinas movidas por muitos milhões de patacas, a confirmação de Chan Meng Kam como um actor político cuja influência vai muito além do propalado voto de Fujian, a força dos laços que aproximam cada vez mais Macau do Continente bem expressa na vitória de Chan e de Mak Soi Kun, neste caso com uma abordagem política que nem sequer sente qualquer necessidade de comunicar ideias ou discutir programas políticos (quem sente?). Mostraram também que Kwan Tsui Hang já não representa como antes a franja mais desfavorecida do território e que Jason Chao, que apesar de tudo apresentou provavelmente o programa mais consistente destas eleições (e a referência é mesmo para o documento alinhavado pela Liberais da Nova Macau, a que poucos devem ter prestado atenção), será na abordagem demasiado radical e fora de órbita para aquilo que o território está capaz de aceitar.

 

2. Os grandes temas da vida pública de Macau não estiveram na campanha, como não fazem parte do verdadeiro circo eleitoral de presentes e promessas pessoalíssimas de regalias futuras. O sufrágio universal passou a ser um detalhe. O incêndio imobiliário arde feliz sem que isso pareça merecer a atenção de quem quer que seja. O sistema de saúde, paupérrimo, não preocupa. O trânsito entope a cidade mas não as vias daqueles que aceleram de Porsche para o hemiciclo. A poluição, do ar ao mar, não turva os objectivos dos grupos empresariais ligados à indústria do jogo. As grandes obras públicas, sujeitas a escrutínios duvidosos assentes em consultas públicas obsoletas e auditorias morosas e sem consequências, continuam alegremente na sua senda de atrasos e explosões orçamentais que não se ouvem para lá do Palácio da Praia Grande.

 

3. Chegados aqui, com mais Pereira Coutinho, é certo, mas com menos deputados pro-democratas e com menos Operários, importa olhar para as listas que ficaram de fora do hemiciclo.

As regras de campanha, o comportamento da comissão eleitoral, o voto arregimentando mais ou menos ilegal, a abstenção mas também a dispersão do voto não contribuem para a possibilidade de novas plataformas políticas chegarem à Assembleia. Desta feita, não há um único projecto novo para a legislatura que aí vem. Há quatro anos, Mak Soi Kun era o recém-chegado, com ligações fortes a Cantão. Melinda Chan também conseguiu ser eleita, mas basicamente em substituição do marido David Chow, também ligado à indústria de jogo e entretenimento.

Agora, olhando para as 20 listas concorrentes, os projectos de Kuan Vai Lam, Agnes Lam, Paul Pun – todos falharam a eleição também em 2009 –, bem como a Tri Decade de Kou Ngong Fong, parecem os quatro mais interessantes entre os que partem de diferentes camadas da sociedade civil para tentarem imiscuir-se nesta luta de titãs. Juntas, as quatro plataformas somaram 14.494 votos. Paul Pun e Agnes Lam, por exemplo, juntos somam 7.530 votos, número à partida suficiente para conseguir um mandato.

Estas contas simplistas valem o que valem – e é pouco – mas talvez seja o momento de estes agentes políticos, que parecem ter um pequeno eleitorado consistente mas curto, pensarem se não fará sentido juntarem forças para, de facto, darem o salto para Assembleia Legislativa.

Não é certo que a união faça a força, neste caso. Mas o que os resultados desta eleições nos dizem com grande dose de certeza é que a separação e dispersão de votos fecha a porta da vida política activa àqueles que não fazem parte da máquina.

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