Notícias de um caos esquecido

Rui Flores*

Quase seis meses após o golpe de Estado, a República Centro-Africana continua a viver no caos. Tantas vezes se ouve o termo caos, sobretudo na comunicação social que hiperboliza e recorre à redundância estílistica do “caos total”, que hesito em utilizá-lo. Mas, de facto, que palavra utilizar quando, em grandes partes do vasto território da República Centro Africana, as pessoas vivem numa completa ausência de ordem? Lá está, viver também não é rigoroso. Sobrevivem.

O caos é viver com medo da própria sombra. É ter de se esconder no mato durante a noite, com receio que os militares venham, roubem, torturem, violem. Não é um retrato de uma realidade imaginada como a que vemos nos filmes. É uma realidade concreta, vivida, sofrida por milhares de pessoas.

Desde o golpe do Estado de 24 de Março são já mais de 200 mil os deslocados internos na República Centro-Africana. A estes é preciso acrescentar o número das pessoas que se refugiram nos países vizinhos dos Camarões, Chade e na também problemática República Democrática do Congo: 62 mil. Na maior parte dos casos, fogem apenas com a roupa que têm vestida.

As instituições públicas, os representantes do Estado, os poucos polícias da esquadra local, o presidente da câmara municipal, os professores das escolas públicas, puseram-se em retirada antes da ofensiva rebelde – uma coligação de interesses de vários grupos rebeldes com lealdades várias que se juntaram com o objectivo de retirar do poder o Presidente Bozizé para assim puderem aceder às receitas dos recursos naturais (ouro, diamantes, urânio). Não mais regressaram.

Ao mesmo tempo, as organizações não-governamentais de cariz humanitário e as próprias Nações Unidas saíram e só a custo é que começaram a voltar. Recentemente. Paulatinamente. Concentraram-se na capital, Bangui, perto do aeroporto, porta de entrada principal para quem vem de fora. Só agora, com o apoio dos poucos militares de uma força internacional da sub-região, a MICOPAX, financiada pela União Europeia e de eficácia duvidosa (em Março, era composta por apenas 600 homens, que tinham como missão protegerem um território cerca de sete vezes maior do que Portugal), é que as agências humanitárias das Nações Unidas conseguem ter uma noção um pouco mais aproximada do que verdadeiramente se terá passado aquando da ofensiva rebelde. Na semana passada, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e a Agência da ONU de Coordenação Humanitária conseguiram deslocar-se até Paoua, 500 km a norte de Bangui, a capital. O cenário é desolador. Várias aldeias reduzidas a cinzas, totalmente incendiadas. A população fugiu toda. Vivem no mato, sem nada. É como se de um momento para o outro, as pessoas, que já viviam em condições sub-humanas, fossem transportadas para um tempo sem regras, tempo que o avanço civilizacional tem feito por ultrapassar.

Entre a ofensiva rebelde de Março e os dias de hoje, as populações não tiveram tréguas. Após o avanço militar vieram as pilhagens e as violações. Depois de se ter instalado no poder, a coligação desagregou-se com alguns grupos a contestarem o poder de Djotodia, o auto-proclamado chefe de Estado. O resultado foi castigarem uma vez mais as populações. E isto tudo longe do olhar da opinião pública internacional. A Al-Jazeera, a CNN e a BBC não reportam. Só de vez em quando, como na semana passada, em que confrontos entre um exército renascido das cinzas fiel ao ex-Presidente Bozizé e o poder instalado ter feito mais de 60 mortos no centro-norte do país, perto da fronteira com o Chade.

Fala-se agora da mobilização de uma força da União Africana. As Nações Unidas atingiram uma dimensão gigantesca com missões de manutenção de paz em 16 países. Têm no terreno, espalhados por quatro continentes, mais de 117 mil pessoas. Não há recursos disponíveis. Não têm capacidade para responder a mais uma solicitação. A ONU acaba de abrir uma missão no Mali e a Síria centra todas as atenções. A “pequena” República Centro-Africana vai continuar entregue à sua própria sorte.

*Consultor internacional

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