Promover o direito ao voto

Paulo Rego

 

Um dos vírus mais curiosos do jornalismo resulta da defesa conceptual de actos cívicos e de comportamentos políticos que, na prática, são rejeitados por quem os comunica. O voto é provavelmente um dos exemplos mais vincados de um processo interior que tem tanto de esquizofrénico como de protecção do equilíbrio. Formalmente, a profissão não implica a perda de direitos cívicos nem políticos, mas o compromisso intelectual e emocional com equidistância e a independência – subjectiva por natureza, mas objectiva enquanto princípio – vão com a maturidade anulando o espaço de adesão e de entrega a causas, pessoas ou instituições. O desgaste da democracia, a dura realidade, a morte da ilusão, o cinismo e o individualismo que envolve as sociedades modernas contribuem também para o desinteresse pelos processos eleitorais, pela orgânica social e pela escolha dos políticos que supostamente nos governam. Dito isto, assumo contudo o inequívoco apelo ao voto no próximo domingo.

Há autores que nos explicam, de forma brilhante, que o voto em branco, bem como a própria abstenção, são formas de protesto essenciais incluídas no pacote de direitos que a democracia embrulha. Apesar desse raciocínio, em tudo legítimo, muitos deles estariam dispostos ao ao bate ndestina, ou mesmoe de conquistas que a democracia embrulha. Muitos deles estariam contudo dispostos aoaocombate clandestino – e até à luta armada – caso lhes fosse negado um direito do qual, por razões  estruturais ou de circunstância, acabam por prescindir. Indo ao ponto: eu não voto em ninguém, por maior que seja a proximidade intelectual ou emocional ou a empatia pessoal, por razões que são da minha circunstância profissional; logo, seria desonesto criticar quem opte pelo mesmo destino, por caminhos que sejam os seus. Defendo, contudo, que o voto em Macau tem uma relevância muito particular. A votação em massa é decisiva para desenvolver uma prática política que é frágil e pobre, promovendo a responsabilização dos deputados e uma maior cultura de exigência. Há muitos quilómetros por percorrer até que se possa descansar à sombra de um caule democrático que, tendo uma raiz curta, pode um dia crescer e ser feliz.

A predominância de um Executivo eleito por um colégio eleitoral urdido a convites, bem como a ímpar relação de forças entre as autonomias especiais e a ditadura continental, fazem da escolha destes 14 deputados o momento de eleição para a demonstração de uma força eleitoral que ninguém sabe medir exactamente qual é nem onde poderá chegar. Numa cidade com cerca de meio milhão de residentes pena é que pouco mais de metade tenha esse direito que é exclusivo dos permanentes: o voto. Por isso ainda mais importa que uma maioria clara e inequívoca dos 277.153 eleitores recenseados se desloquem às urnas, senão for para escolher alguém, pelo menos para reforçar a importância desse direito. A escolha é simples de equacionar: a candidatura que mais lhe agrade e convença; aquela que, apesar das dúvidas que possa manter, melhor represente as teses que o preocupam ou seduzem; ou, na pior das hipóteses, um voto em branco, que castigue as 20 listas na corrida – porque significa que nenhuma delas merece o seu aval – mas certifica o valor que, nas circunstâncias do regime em vigor, dá ao direito que tem de votar.

 

Não se pode elogiar

 

Longe vai o tempo em que se aceitavam desculpas de terceiro mundo para questões de primeira água para as quais não pode haver contemplações. Nos tempos mais quentes do processo de democratização em Angola, durante umas eleições minadas por fortes suspeitas de corrupção e de manipulação dos resultados eleitorais, um observador internacional, na circunstância português, respondeu de uma forma que aqui reproduzo, não de forma literal, mas com este sentido inequívoco: Houve, de facto, problemas complicados, mas sendo em Angola aceita-se. É caso para dizer que a emenda foi pior que o soneto. Há posições e compromissos simplesmente inaceitáveis, sobretudo quando está em causa a responsabilidade formal e a obrigação moral de quem desempenha certos cargos. E o presidente da Comissão para os Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa tem o dom de fazer despertar os fantasmas mais negros.

Depois de ter dado a entender que o uso dos telemóveis seria proibido – e vigiado – para evitar que fossem transmitidas fotografias como prova de voto encomendado, Ip Son Sang vem agora alegar que retirar os telemóveis “iria dificultar o processo de votação” e seria “injusto para a maioria dos eleitores”. Pior do que isso, admite que esse mecanismo, ainda por cima a coberto das cortinas que este ano protegem as cabines de voto, seja praticado “apenas por uma pequena parte” dos votantes. Elogiei esta semana as cabines, as cortinas envolventes e a proibição de qualquer tipo de comunicação com o exterior. Retiro  que disse.

Não pode haver tolerância com a corrupção, seja ela eleitoral ou outra qualquer, muito menos por parte de quem tem a responsabilidade máxima de a prevenir e condenar. Veja-se o argumento: Ip Son Sang confia na consciência cívica da maioria dos eleitores, portanto não está preocupado com a minoria que não merece confiança. O que é que isso quer dizer. Que vai haver alguma corrupção, mas sendo em Macau aceita-se? Há coisas que só mesmo depois de as ouvir é possível acreditar que alguém se atreva a dizê-las.

 

Idade da inocência

 

Tem piada ver Kwan Tsui Hang a andar de bicicleta, com a prole no atrelado. É das grandes fotografias desta campanha, publicada na entrevista que deu ao PONTO FINAL. Um dos símbolos vivos do conservadorismo operário faz parte da história de Macau – de um tempo que era mesmo outro, como tão bem transmite a filmagem. Está na Assembleia Legislativa há 17 anos e agora diz que lá estar é o seu destino, anunciando que vai abandonar os outros cargos que exerce para se dedicar de corpo e alma à pela de deputada. Os eleitores vão decidir se a mulher que nos lembra o passado tem ainda lugar no futuro. Mas a prioridade que estabelece tem sentido e revela faro político. É uma forma inteligente de se dirigir ao seu eleitorado.

Há apenas uma escorregadela na entrevista que, por ser inocente, não retira a experiência que revela num conjunto de respostas pensada para passar uma imagem de seriedade e de dedicação ao trabalho. Raramente lê, diz, porque não tem tempos de lazer. Faz-me lembrar um antigo director de jornal que não queria fornecer Internet aos jornalistas porque, justificava, não lhes pagava para eles estarem a brincar nos computadores. Há uma certa tolerância no regresso à idade da inocência.

 

Alheamento

 

Uma reportagem publicada no Jornal Tribuna de Macau dá conta do desinteresse da juventude pelo processo eleitoral. Não se trata de uma sondagem, mas é um espelho que transmite uma imagem que intui a realidade mais geral. Aliás, vários estudos académicos, em Macau e não só, mencionam essa tendência generalizada. E os motivos são vários: há poucos candidatos jovens, a informação é pouca ou não circula, ganham sempre os que têm mais poder e dinheiro, cimenta-se a imagem dos interesses instalados e da incompetência de quem os representa, etc. Não há grande surpresa neste sentimento, que aliás foi também sintetizado, por exemplo neste jornal, por faixas etárias até mais avançadas. Mas também não são novidade os contornos negativos desta constatação.

A participação política, no seu sentido clássico, não é a única forma de intervir em sociedade. A questão é a de saber qual é então o caminho que as novas gerações propõem e quais as alternativas a que estão dispostas. Muita gente passou pela ilusão anarquista, pela pura decepção ou pela tentação do isolamento, sonhando um dia viver sem relógio nem telemóvel numa cabana qualquer ao pé do mar. É uma opção individual, que não tem nada de mal nem prejudica ninguém. Mas quando o projecto de vida é outro, mais vale assumir os instrumentos que existem, ganhando espaço para inventar outros.

 

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