Há 20 anos

João Paulo Meneses*

 

Faz agora 20 anos estava a deixar Macau, depois de uma experiência profissional que durante muito tempo classifiquei como decepcionante. Aliás, não foi fácil, nos primeiros anos, explicar por que regressei tão depressa a Portugal, depois da mudança para a Rádio Macau.

E se insistia em valorizar a parte pessoal, percebia que encontrava nos meus interlocutores muito cepticismo quando dizia que esses poucos meses na Rádio Macau me pareciam não muito distantes do que seria trabalhar no tempo da censura e do fascismo (que não conheci).

Aliás, confesso – em primeira-mão… – que decidi regressar a Portugal ainda no dia em que cheguei a Macau, depois de, no jantar de boas-vindas, o secretário adjunto Salavessa da Costa ter dito qualquer coisa como “Macau precisa mais de patriotas do que de jornalistas”. A vergonha de regressar de imediato e o bom-senso da minha mulher impediram-me de o fazer.

Mas aquelas palavras, além de proféticas, eram mesmo uma cartilha pela qual me teria de orientar. Eu e quem lá trabalhava, imagino.

Ao fim de pouco mais de três meses acabei mesmo por me demitir e no final do verão estava de regresso a Portugal.

Uma experiência profissional desastrosa?

Lá está, durante muito tempo pensei que sim.

Mas acabei por perceber que a experiência foi muito mais enriquecedora do que pensava. Acabou por funcionar como um teste ao meu carácter e ao meu profissionalismo.

Se hoje tenho algumas ideias bem definidas sobre o que deve (continuar a) ser o jornalismo e, do ponto de vista ético e deontológico, considero-me conservador, devo isso aos tempos de Macau.

Se tivesse cedido aos apelos que então chegavam, em nome da estabilidade e do bom ordenado, hoje seria certamente quer um jornalista quer uma pessoa diferente.

Recordo, 20 anos depois, uma frase que um então director da TDM me dizia muitas vezes, quando o via, todos os dias, ser atropelado profissionalmente pelo Palácio da Praia Grande: vou-me embora quando tiver juntado cem mil contos!

Entre as muitas memórias desse momento, recordo também um noticiário num sábado marcado por uma greve do lixo que se arrastava há dias (era preciso bater com os pés no chão, à noite, para afastar os ratos que rodeavam os montes na rua) e o pedido que um responsável fez a uma jornalista para não dar aquela que seria uma das notícias mais importantes do ano. E ela não deu…

Foi em nome dessa ‘filosofia de vida’ que vi e ouvi coisas que nunca tinha visto nem ouvido. E que, acredito, me acabaram por valorizar.

Ao iniciar esta série de artigos de opinião no PONTO FINAL, não quis deixar de valorizar a coincidência. Que é, para mim, simbolicamente, muito mais do que isso.

 

PS – Este texto não visa, directa ou indirectamente, nenhum jornalista que tenha trabalhado na Rádio Macau durante a governação de Rocha Vieira, antes, durante ou depois de mim. Primeiro porque apenas sei de mim próprio, depois porque todos temos vivências diferentes. Também não visa o jornalismo feito em Macau, do qual tenho as melhores referências e de que me orgulho de fazer parte… há 20 anos.

 

*Jornalista

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