Campanha negra

Paulo Rego

A caça ao voto escapa vezes sem conta aos fundamentos éticos e morais do exercício democrático. É uma tentação da natureza humana saltar da discussão de ideias e de projectos políticos para o ataque ao carácter dos adversários,  como se isso fosse uma factura obrigatória por troca do direito de eleger e de ser eleito. Em rigor, o abuso do direito de opinião, usurpado através do delito da difamação, merece não só lamento como também castigo – se não criminal, pelo menos eleitoral. Independentemente dos processos judiciais, da defesa da imagem e do bom nome, quem atira lama para um chão, sem ter provas que cimentem as acusações, merece estatelar-se nas urnas. Mas nem sempre isso acontece, sobretudo quando a cobardia do anonimato integra o processo.

Há três exemplos que representam prejuízo potencial para candidatos importantes nesta corrida eleitoral. Por muito céleres que sejam a combater os efeitos negativos do ataque, na recta final da campanha, são colocados em posição defensiva e confrontados com o risco de serem eles próprios agentes do problema, dando-lhe ao reagir uma visibilidade que ele não merece.

Pereira Coutinho, Agnes Lam e Jason Chao foram alvo de ataques pessoais e de carácter sem qualquer relação com os conteúdos políticos em debate e claramente destinados a prejudicar a sua elegibilidade. Os factos são do conhecimento público, mas não merecem crédito algum, porque surgem a coberto do anonimato e nem timing com o óbvio intuito de minar o élan das candidaturas em causa. Por uma questão de estilo, mas também de convicção, nem sequer retransmito em pormenor o conteúdo desses ataques, para não lhes dar eco.

Vale contudo a pena perceber o essencial do que está em causa. O tipo de práticas de que é acusado Pereira Coutinho, na hipótese de terem o mínimo de sustentação, deviam ter sido denunciadas em boa hora. Porque são condenáveis em qualquer circunstância, sejam imputáveis a um deputado, a um empresário ou a um estafeta. É incompreensível que a suposta vítima só agora se tenha lembrado disso, alegadamente porque viu que ele era candidato. Então não viu antes que era deputado? E quando sofreu os alegados abusos não se achou no direito e na obrigação de os denunciar?

Tendo os ataques uma dimensão menos negra no caso de Agnes Lam e de Jason Chao, a questão põe-se nos mesmos moldes. Enquanto professora universitária e mulher preocupada com a igualdade de género, se alguma crítica havia a fazer ao seu comportamento profissional devia ter sido feita e esclarecida nos canais próprios e na altura devida. Mais do que difamação, há também aqui calúnia, porque se falam de negócios que não existiram, nem podiam ter existido. Por fim, a vida pessoal de Jason Chao e os arrufos que eventualmente façam parte das suas relações pessoais, pura e simplesmente, não são para aqui chamados.

Os candidatos têm todo o direito de se queixarem às autoridades, interpor processos e outros instrumentos de defesa da sua imagem, mas o tempo dessas coisas nunca é o tempo das eleições. É por isso importante perceber que, haja o que houver por esclarecer, não é nas urnas que esse juízo pode ser feito. Faz parte da maturidade democrática condenar estas campanhas negras, virando o feitiço contra os feiticeiros. Essa sim, é uma decisão que já cabe aos eleitores.

 

TDM a menos na campanha
Por muito populares e activos que sejam candidatos como Chan Meng Kam ou Pereira Coutinho, o período de campanha eleitoral tem sido secundarizado até por alguns candidatos que se podem dar ao luxo de se exporem noutros palcos e com instrumentos que têm ao seu dispor durante todo o ano. O circo tem pouco espectáculo, o ambiente é morno e, de facto, com tantas listas em disputa não é fácil encontrar meios humanos e motivos editoriais para ir a todas ou para dar à campanha eleitoral o espaço nobre da abertura dos noticiários. Contudo, as directas em Macau representam também a oportunidade de dar força a uma circunstância que não tem a força que deveria ter. A televisão e a rádio de língua portuguesa, por serem de interesse de público, mas também por terem mais meios do que a imprensa escrita, podiam e deviam ter dado outra visibilidade a este momento.
A comunidade portuguesa não decide a tendência de voto, mas nela reside – ou devia residir – uma parte relevante da cultura de interesse pela pequena parte do regime que tem um desenho democrático e que diz respeito a toda a população. Se não há motivos nem meios para todos os dias pôr todas as fichas no jogo eleitoral, é estranha a percepção de que a aposta é a de não gastar o que se tem onde se pode. A questão aqui não é só editorial. É também política, no seu sentido mais nobre e didáctico, que é o da sua defesa e promoção.

 

Ganhar mesmo perdendo

 

Lei Kin Iun está em campanha com um empréstimo de 20 mil patacas e com a ajuda de amigos que o ajudam de forma voluntária. É mais radical do que aquilo se espera de um candidato à Assembleia Legislativa, sobretudo numa cidade conservadora, perderá parte da razão na forma como por vezes vocifera aos quatro ventos, ou mesmo na falta de consistência de alguns dos conteúdos que expõe. Mas resiste, insiste e persiste naquilo que quer ser, bem como na tese de que aquilo que é merece o assento que não tem.

Há um lado sonhador que enriquece a política. E as margens do seu exercício, em termos estéticos, têm um grande valor injustamente menosprezado, que é o de ajudar a definir onde está o meio. Quanto mais esticado é o espectro, quanto maior for a distância entre as suas margens, mais rica é a realidade que inclui. E esse é um papel que poucos têm jeito e coragem para desempenhar. São mais que improváveis as hipóteses de Lei Kin Iun ser eleito, mas não deixava de ter piada. Certamente poria muitos outros deputados de cabelos em pé.

 

Directamente das indirectas

 

É natural que nesta altura já pouca gente se lembre de que também serão eleitos deputados à Assembleia Legislativa pela via indirecta, através de um sistema que protege os interesses sectoriais e corporativos. Por um lado, estão já todos eleitos, porque apesar da encenação do voto depositado em urna, ninguém concorre contra ninguém, estando já todos eles escolhidos na sequência de negociações de bastidores; por outro, a prática é tão obscura que já toda a gente encolhe os ombros perante a face do regime que mais se protege – de todas as maneiras e feitios – da exposição pública e do crivo mediático.

Convém contudo frisar que, sendo sempre os mesmos, dizendo sempre as mesmas coisas e tendo sempre a mesma atitude, entregam-se a uma estratégia que se destina a ajudar o Executivo a controlar o hemiciclo, com base em relações associativas e negociações que, sendo por natureza perversa – seja qual for a sua estética e justificação – prejudicam a prática política e, em rigor, o próprio desenvolvimento económico e social. A bem de todos, a começar pela imagem dos próprios deputados eleitos por essa via, mas também dos interesses que representam, é bom que mais cedo ou mais tarde – enquanto tiverem de existir – que envolvam a vivência num manto que lhes dê o mínimo de sentido e de legitimidade.

 

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