Os super-heróis

Sónia Nunes

O arranque da campanha eleitoral coincidiu com o Fórum Socialismo 2013 e a cruzada contra o piropo do Bloco de Esquerda, o que me obriga a começar este artigo dizendo que acho Ho Ion Sang um homem bonito. Muito bonito. Está nos antípodas da forma como vejo (e bem) o mundo, mas, como não são só as mulheres que parecem mais inteligentes quando vestidas de preto, consegue de quando em vez a minha atenção. O vídeo que a União Promotora para o Progresso preparou para o tempo de antena é apenas um fragmento de todo o encanto e mistério deste homem que tem tanto de deputado como de galã do pequeno ecrã.

Ho Ion Sang apresenta-se como um fazedor de sonhos nos locais onde menos se espera encontrar um político. Aparece numa carreira da Transmac, o que é, desde logo, giro por criar no eleitor a expectativa desta ter sido a primeira viagem que fez num autocarro público. Está sentado um banco atrás de um jovem que escreve música, falha e tenta de novo, até amarfanhar a pauta. Num desespero criativo e contra toda a regulamentação geral dos espaços públicos, o jovem atira a folha para o chão. A sorte é Ho Ion Sang estar lá para lhe estender a mão. Uma pessoa comum que ande de autocarro vê, no máximo, um amontoar indiferenciado de cocurutos. Ho Ion Sang, esse caçador de talentos, encontra o Yo Yo Ma de Macau.

É o que Ho Ion Sang faz: coisas impossíveis. Já a número dois da lista, Wong Kit Cheng, faz os possíveis pelos idosos. É vê-la com a farda de enfermeira, toda a ela cuidados em chinês e pronta a dar uma trinca numa maçã vermelha, qual Branca de Neve da Areia Preta. As recompensas que os membros da lista dos Kai Fong recebem no auxílio a terceiros são, de resto, merecedoras de um ensaio semiótico, que, infelizmente, não cabe nestas páginas. Há um ursinho de peluche, um origami e um ovo – uma referência à origem da vida ou antes uma provocação jovial aos cabeças de lista que ficaram conhecidos por arremessarem ovos? Dá que pensar.

Ainda na categoria para melhor vídeo de ficção na campanha eleitoral, concorre Mak Soi Kun. Um espectáculo de candidato. Para quem só fala e lê português, tem quatro palavras e um número: “Faz favor, voto para 8 lista”. Aprecio o tom directo, mas educado. A naturalidade com que se aproxima do nosso eleitorado, como quem pede, se faz favor, uma sandes mista para a mesa oito, é inédita e de louvar.

Mas confesso gostar mais daquela história de estar um velhinho a atravessar a passadeira e de haver na mesma rua um homem de fato e gravata que, atento e zeloso, faz um telefonema. Do outro lado, estará Mak Soi Kun ou deus. Num ápice, acorre ao local um grupo de jovens de t’shirt cor-de-laranja que ajuda o velhinho. E a velhinha que recolhe caixas de papelão na rua. E a que precisa de um aparelho auditivo. É o que Mak Soi Kun faz: resolve, melhor manda resolver.  À patrão.

O melhor desta campanha eleitoral é descobrirmos que há um super-herói em cada deputado. Só um político com poderes especiais consegue fazer da Assembleia Legislativa o krypton da democracia.

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