Mais olhos que barriga

Inês Santinhos Gonçalves

 

Não raras vezes Macau é descrito como uma espécie de El Dourado – os salários são altos, tudo vinga, tudo cresce, tudo multiplica. A premissa não é falsa e não podemos negar a prosperidade do território, mas há outras coisas a crescer por aqui, que reduzem consideravelmente a qualidade de vida da população. Antes de tudo, os preços. Desde o início do ano, em geral, bens e serviços estão 5,27 por cento mais caros; os produtos alimentares e bebidas subiram 6,6 por cento (só a carne aumentou 18,4 por cento e o peixe fresco 6,45 por cento). Se estes números o deixam de queixo caído – e devem deixar – prepare-se: as rendas de habitação subiram, apenas desde Janeiro, 13 por cento, apesar de o preço de venda de imóveis de ter descido.

Sim, os salários são altos, mas não nos esqueçamos que a mediana de rendimentos está situada nas 12 mil patacas, o que manifestamente não se coaduna com os actuais preços da habitação. O porquê do aumento acentuado das rendas é uma incógnita – há pistas mas não sabemos bem o que o motiva. A culpa dilui-se por entre a multidão de proprietários, numa lógica de “se os outros cobram mais não vou ser o tanso que recebe menos”. Mesmo, claro, que se trate de uma casa insalubre, sem luz, com o chão a estalar, sem cozinha e com quartos onde não cabem camas. Tudo embrulhado num preço de amigo à volta das sete mil patacas, mais de metade do rendimento mediano em Macau.

Não podemos esperar que o mercado seja equilibrado, o capitalismo prima de várias virtudes, mas bom-senso não será uma delas. O que podemos esperar é um limite máximo para o aumento das rendas que ponha freio na ganância instalada. Fazê-lo seria muito mais útil à população do que a distribuição indiscriminada de cheques.

O que desejo do Governo não é que se comporte como o meu patrão (a não ser, claro, que o seja). Não é o Governo que me deve pagar as férias ou as prendas de Natal, nem premiar-me pelo empenho. Mas é o Governo que deve garantir que todos podem ter um tecto condigno e que o acesso a educação e saúde de qualidade é independente do extracto bancário, por exemplo. É o Governo quem deve assegurar que as crianças têm parques onde brincar, que há transportes públicos eficientes e que o ar que respiramos é próprio e saudável.

Minimizar o impacto do custo de vida através de uma ajuda financeira é simpático e dá jeito, ninguém diz que não. Mas mais prioritário seria assegurar que o sistema não vive de excessos, como acontece no sector imobiliário.

O ruído na Assembleia Legislativa também não é muito, talvez por grande parte dos deputados não ter qualquer interesse em que as rendas baixem. Mas não faz mal. Assim como assim, o Governo nunca liga aos deputados. Consequências sui generis de um sistema político harmonioso.

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