Milagre de Fátima

Sónia Nunes

 

É mais fácil um camelo (ou outro animal à escolha) passar pelo buraco de uma agulha do que um democrata se esquecer do dia em que não houve consenso em Macau, na sua versão RAEM. Foi um fenómeno testemunhado por uma centena de pessoas a 19 de Março de 2009, na Assembleia Legislativa  (AL) – o facto de ter sido anunciado e transmitido na televisão, a amostra variada de observadores (havia crentes e não crentes e assim-assim) e a ausência de uma multidão afastaram, de imediato, a hipótese de ter sido uma alucinação colectiva. Todas as explicações científicas para o sucedido também caíram por terra quando se conheceu o desfecho daquele que ficou conhecido como o milagre de Fátima Choi.

À semelhança do que aconteceu na Cova da Iria em 1917, a aparição da democracia em Macau foi sol de pouca dura, umas duas horas. Foi o tempo do debate sobre, até me vem uma lágrima ao olho, o relatório de auditoria da Conta Geral de 2007. Quem não se lembra daquela “opinião com reservas” emitida, dois anos depois, por Fátima Choi? Para aquele senhor que levantou o braço, digo que a ex-comissária de Auditoria se recusou a fechar os olhos à incapacidade do Governo em cumprir um regulamento que ele próprio elaborou, apesar de responder politicamente perante o Chefe do Executivo.

A pegadilha na AL surgiu porque os deputados tiveram reservas em relação à opinião com reservas de Fátima Choi, à excepção de Ng Kuok Cheong e Au Kam San que concordaram com o Comissariado de Auditoria (CA), sem reservas. Na oposição, destacou-se Chui Sai Cheong com dois argumentos extraordinários: primeiro, ninguém tinha metido dinheiro ao bolso (o que sempre é uma hipótese a considerar); segundo, como o tal regulamento tinha entrado em vigor naquele ano, só em 2008 e no caso de Governo continuar a não cumprir as regras que ele próprio fez (um clássico, entre nós) é que o CA teria legitimidade para ter uma “opinião com reservas”. A tese foi secundada por outros deputados, que acabaram por pedir a demissão de Fátima Choi, que é o que se espera que a AL faça quando quem está à frente de um órgão independente critica formalmente o Governo.

No dia em que quase houve democracia em Macau, Fátima Choi foi levada a admitir que teve uma “luta interior” (imagine-se se tivesse tido uma “opinião negativa”) e optou por colocar a deontologia à frente do cargo. Mais do que as pressões que enfrentou pela auditoria aos Jogos da Ásia Oriental, o maior lamento que Choi manifestou foi a falta de apoio da AL nos dez anos em que esteve à frente do CA. Quatro anos depois e numa entrevista que nos chegou em português pelo Hoje Macau, mantém que não saiu por vontade própria. “Se o Governo precisasse teria ficado”, repetiu. Chui Sai On prescindiu de uma comissária independente, o que continua a dar que pensar e merece, no mínimo, uma opinião com reservas. 

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