Língua morta

Sónia Nunes

As notícias não me deixam mentir (logo que, que gosto tanto): as meninas boas vão para o céu, as más para a Associação Geral das Mulheres de Macau. Wong Kit Cheng revelou-se uma candidata levada da breca às eleições legislativas e uma condenável enfermeira. Ao opor-se à contratação de profissionais portugueses, não só agravou a dose de populismo xenófobo com que se comprazem as listas do sufrágio directo, como negligenciou de forma grosseira a falta de enfermeiros  e menosprezou o acesso de uma minoria aos cuidados de saúde públicos. Nada mau para uma estreante – há deputados com décadas de campanha eleitoral que nunca conseguiram cometer tantos erros numa só declaração.

Há um ponto em que Wong Kit Cheng tem razão: a comunicação entre enfermeiros e doentes é importante, contribui para o bem-estar e recuperação do paciente. Não é, contudo, decisiva, muito menos uma questão de vida ou morte. A interacção nas unidades de saúde é hoje objecto de estudo, mas por se entender que os enfermeiros não devem esquecer as necessidades emocionais dos doentes. A ideia é também ensinar técnicas de comunicação não-verbal para usar com os doentes que estão impossibilitados de falar – por  estarem ventilados numa unidade de cuidados intensivos, por exemplo.

O que isto interessa? Nada, que não foi isto que a número 2 da União Promotora para o Progresso (rir) veio defender. Wong Kit Cheng bastou-se em afirmar que a contratação de enfermeiros portugueses “coloca em risco a vida dos cidadãos”. A língua como causa de morte tem sido, no entanto, ignorada pelo Conselho Internacional de Enfermeiros que aponta antes para os erros de medicação  – nomes de medicamentos trocados, falhas de cálculo nas dosagens, entre outras fatalidades por norma associadas a uma má formação profissional ou a uma carga excessiva de trabalho, resultante da falta enfermeiros (pasme-se).

Talvez por não serem conhecidos os casos dos doentes que, no seu perfeito chinês, dizem ao enfermeiro que a dose intravenosa diária de vancomicina é de dois gramas, divididos em doses de 500 mg de seis em seis horas, e vice-versa, que também Mónica Cordeiro está contra a contratação de mais portugueses. O mais estranho nas declarações da presidente da Associação de Enfermagem de Macau – além do imbatível “para falar português temos os filipinos” – é que, se a memória não me falha (e não falha porque tenho o texto à minha frente), há um ano falou assim a este jornal: “Há falta de enfermeiros e precisamos de enfermeiros portugueses”.

Mónica Cordeiro, que lidera uma das bases eleitorais de Melinda Chan, falava assim antes de Wong Kit Cheng aparecer na corrida e numa reacção à decisão do Tribunal de Última Instância contra os enfermeiros portugueses que tentaram lutar na justiça pelos retroactivos previstos na revisão da carreira, em 2009. É altura certa de nos lembrarmos que foram deputados com o perfil de Wong Kit Cheng que aprovaram uma lei que resultou num acto de discriminação. E que o português, não sendo uma língua morta, pode e deve olhar pela sua saúde na próxima ida às urnas.

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