Jogo alto

Paulo Rego

Seteve Jacobs, ex-director executivo da Venetian, afirma que o processo de indemnização por despedimento sem justa causa se arrasta nos tribunais norte-americanos porque inclui documentação politicamente sensível para Macau e para Pequim; Zhang Jinfeng, representante no território do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, lança avisos contra a “interferência e intervenção” nas eleições de “representantes de instituições estrangeiras”; Francis Tam revela que, a partir de 2015, haverá “várias opções” em carteira para renegociar as licenças de jogo – da mera extensão por cinco anos à abertura de novo concurso – e Jason Chão reacende a fogueira das subconcessões, que chamusca toda a indústria dos casinos e a geração que governa a RAEM desde a sua génese, em 1999.

O jogo é muito alto. E a tensão que se sente ser crescente revela que, como no início do milénio, há novamente duas transições no horizonte: por um lado, a discussão de um novo ciclo político, que Chui Sai On foi incapaz de corporizar no seu primeiro mandato; por outro, a renegociação com as seis operadoras que, de facto, definem um Produto Interno Bruto que a liberalização do jogo transformou num caso de estudo mundial.

Por razões diferentes, as duas figuras que no início do milénio dominavam o eixo de gravidade político-económico local estão agora em posição mais frágil. Stanley Ho convalesce de uma debilidade que a idade não lhe permite superar e Edmund Ho ainda luta pela influência que gere na sombra, mas adivinha-se que o próximo mandato na Praia Grande venha a ter um traço diferente – com mão mais firme de Pequim, onde emerge uma geração que já não é a mesma com a qual lidou o primeiro mandarim da RAEM. O desenho que aí vem tem outros contornos, novos artistas e a tonalidade da mudança de paradigma na China.

Do ponto de vista económico, os casinos terão de se adaptar ao controlo do fluxo de capitais no Continente e a terra terá de adubar a falhada diversificação; do ponto de vista político, está longe de ser cumprida a afirmação desta autonomia especial como laboratório – na instrução académica, social e política da população, na integração no Delta do Rio das Pérolas, no exemplo integracionista que deve dar a Taiwan, nos caminhos da internacionalização do projecto lusófono… E é crucial que a força motriz do jogo não volte a sugar tudo o resto – como aconteceu na última década.

A dúvida está em saber se o novo ciclo se adia – por mais cinco anos – ou se a transição começa já na construção do próximo Executivo e na formatação do futuro das (sub)concessões de jogo. O fervor das movimentações de bastidores revelam a preocupação com o posicionamento de curto prazo, porque mesmo que os passos sejam para já curtos, serão decisivos para definir os protagonistas e a direcção do caminho que se segue.

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