Com o rei na barriga

Sónia Nunes

Ele há outro mistério a tirar disto que não seja uma gargalhada por cada par de estalos? À hora a que escrevo este simples mas asseado texto aconteceram-me muitas coisas, menos duas de extraordinária importância: ainda não são conhecidos os resultados do sorteio da ordem das candidaturas nos boletins de voto pelo sufrágio directo nas próximas eleições legislativas, nem o nome do bebé real, o filho primogénito de suas altezas, os duques de Cambridge. Lembro-me de Mário-Henrique Leiria, que é de quem toda a gente se lembra nestas ocasiões, e do seu telegráfico romance de amor em que a noiva, estendendo os braços carinhosamente, pergunta: “És tu Ernesto, meu amor? Não era. Era o Bernardo. Isso não os impediu de terem muitos meninos e serem felizes para sempre”.

Há três ou vários motivos para acompanhar a história de quem antes de ser já é. O bebé real nasce por oposição aos bebés fictícios, aqueles que, como Myra, foram proibidos de existir, roubados de poder ser. E nasce príncipe: do alto de umas nobres fraldas e de uns valentes 3,6 quilogramas, é o terceiro na linha de sucessão. Só tem de continuar a papar bem e evitar aparecer nu em público para chegar nas calmas a Chefe de Estado, o que me parece ser mais do que suficiente para transformar qualquer pessoa num republicano convicto.

Ainda no campo das vantagens de assistir à vida em monarquia, destaco a encenação do conto de fadas, necessariamente medieval. Na clássica história da plebeia que fisga o príncipe, o final não pode ser alterado: a seguir ao casamento, a mulher tem de dar à coroa herdeiros e com isso partilhar de uma felicidade eterna, que só poderá ser interrompida por um trágico acidente. Desde que se casou, em 2011, que as expectativas em Kate Middleton se resumem à sua capacidade de produzir vida. O mundo ganha interesse pela barriga das princesas a caminho dos 30.

O giro desta fábula é que não é preciso viver numa monarquia para haver mães convencidas que têm o rei na barriga e famílias dispostas a tratar os seus bebés como monarcas. Ainda na semana passada, peguei na minha sobrinha mais nova ao colo e levei-a à janela da cozinha para lhe alimentar o narcisismo, dizendo-lhe que tudo aquilo era dela – a diferença é que estava a fazer piada (a mistura de uma educação católica com China e Edward Snowden faz com que uma pessoa ache que está a ser sempre observada) e o tudo aquilo eram os telhados de dois barracões e um quintal, não o Reino Unido e os países da Commonwealth.

A diferença é também que a minha sobrinha, infanta numa família de colarinho azul, vive num país onde tem tanto a dizer quanto o bebé real. Nasceu livre e igual aos outros, pode ser chefe de cozinha ou Chefe de Estado. Como a irmã e os filhos dos vizinhos. Não consigo lembrar-me de uma história mais feliz que esta.

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