Nem sal nem pimenta

Paulo Rego

Na entrevista esta semana concedida ao Hoje Macau, Angela Leong lamenta que o Governo não tenha ainda resolvido a questão da diversificação económica, que reputa de urgente. Por outro lado, aponta a estatística “alarmante” que demonstra que a esmagadora maioria dos turistas não permanece em Macau mais do que um ou dois dias. Na única indústria de facto relevante o tempo necessário para bater com as fichas na mesa é o único factor consistente de atracção. Não há novidade na análise, mas é extraordinário que ela seja sublinhada pela directora executiva da maior e empresa local – a mais antiga e líder no mercado do jogo.

Ninguém tem dúvidas de que Stanley Ho diversificou os seus investimentos. As revistas internacionais da especialidade são aliás consensuais na tese de que serão tantos e tão relevantes os negócios que montou ao longo de quatro décadas que ninguém sabe ao certo quanto valerá o império da STDM por esse mundo fora. Mas para além dos transportes marítimos e do imobiliário, nunca foi em Macau que encontrou motivos para fazer apostas fora do core business. Aliás, nenhum empresário com músculo financeiro conseguiu alguma vez incorporar a consciência territorial que o levaria a preocupar-se com questões menores quando dobra ou triplica os investimentos nas únicas áreas em que verdadeiramente se multiplica dinheiro em Macau. E como empresários e governantes são componentes da mesma massa, a alquimia dos lucros é feita numa cozinha farta em resultados mas pobre ingredientes.

A ideologia liberal, que tanto satisfaz os empresários quando toca à fragilidade dos direitos laborais, é a mesma que lhes dá a primazia das decisões de investimento… Mas, em Macau, onde as teses contraditórias passeiam de mãos dadas, já é o Executivo o responsável por impor a diversificação do investimento. É um facto que a política de subsídios é esquizofrénica, a regulamentação económica não tem projecto de base e a atracção de investimento é inexistente – já para não falar nas restrições à importação de massa crítica e na cegueira política que devolve aos ministérios chineses do Comércio e dos Negócios Estrangeiros a parte da estratégia lusófona que nos havia sido entregue. Mas é incontornável reconhecer também o monolitismo de um tecido empresarial que é empreendedor no que lhe convém, corporativo quando quer e sebastianista sempre que pode.

É por estas e por outras que se vivemos na perversa contradição entre a defesa de uma autonomia cada vez mais alargada e a consciência de é preciso alguma intervenção continental. A questão é dura e crua: a diversificação económica ou o projecto lusófono não têm sal nem pimenta local – nem na Administração, nem na burguesia oligárquica. Assim só mesmo com chefs da cozinha do mandarim.

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