Uma pena de morte

Hélder Beja

 

O senhor Cheong tinha um boné dos Red Sox. Era uma tarde de Junho, quase como as de agora, quente e húmida, e nós estávamos sentados numa mesa de jardim da Biblioteca Robert Ho Tung. Nós éramos eu, uma amiga e tradutora chinesa, e dois irmãos de Lau Fat-wai, homem que, soube-se agora, já foi executado na China. Um dos irmãos era o senhor Cheong – e tinha um boné dos Red Sox.

De Portugal pediam-me um perfil de Lau para publicar num jornal nacional. Era, afinal, um cidadão português que estava condenado à pena capital ali ao lado, no Continente. Era “um cidadão de etnia chinesa com passaporte português”, como muito se escreveu. A Amnistia Internacional ajudou-me a chegar à família de Lau e, naquela tarde, sentei-me à mesa com os parentes do agora defunto.

A história, como de novo se conta nesta edição do PONTO FINAL, ainda com mais detalhe, era deveras complexa. A capacidade dos irmãos em conduzirem-nos por um processo fantasma, do qual se soube sempre tão pouco, era a possível e a tradutora, excelente, fazia o melhor que podia.

A outra irmã era uma senhora. O senhor e a senhora Cheong falavam muito e alto, espalhavam recortes de jornais e papelada vária na mesa, mostravam-me fotografias que me proibiam de registar com outra câmara e pediam por tudo para que os seus nomes próprios não aparecessem citados no jornal.

O senhor e a senhora Cheong eram gente assustada, muito assustada com um processo na antítese da coisa kafkiana, porque quase nada se sabe, quase não há papéis, telefonemas, registos, moradas. Quase não há informação. Quase não se dá pelo desaparecimento de alguém.

Lau Fat-wai evaporou-se quando entrou na China. A família nunca mais o viu, nunca mais soube onde estava, nunca mais escutou a sua voz. Foi em 2006. Seis anos depois, naquela mesa de jardim, a irmã de Lau fitava-me com olhos cansados – já nem tristes conseguiam ser, só cansados – e dizia-me no pouco espanhol que metera na bagagem quando viera da Venezuela para tentar salvar o condenado: “Tu sabes que mi familia tiene cosas muy difíciles. Yo fui a Pekín, a la embajada de Portugal, por muchas horas, pedir por favor, ayudar mi familia”.A irmã de Lau pedia à tradutora para me perguntar se eu ia ajudá-los, se ia fazer alguma coisa por Lau, se, se… E eu sem saber que responder. Disse-lhe que esperava que o texto, quando publicado, chamasse novamente a atenção das autoridades, disse-lhe que telefonaria às partes que poderiam tentar mexer no processo a partir de Portugal. Disse e assim aconteceu. Depois, nada aconteceu.

É provável que o Estado português não pudesse ter evitado este desfecho, mas ficava-lhe bem ter tentado mais um pouco.

Agora, a esta distância de mais de um ano, pouco antes de eu partir para uma viagem que estava destinada a dar-me um pontapé na vida, o senhor e a senhora Cheong parecem-me duas figuras irreais, um casal que de repente saltou de uma vinheta para se sentar à conversa comigo – ele com um boné dos Red Sox, ela a espanholar. Mesmo assim foram eles que humanizaram aquele homem que até essa altura era apenas um número nas notícias, um “cidadão de etnia chinesa com passaporte português”. Foram eles que lhe contaram a vida antes de lhe adivinharem a morte.

A minha incapacidade de compreender mandarim – língua em que a conversa decorreu por ser aquela que a tradutora dominava – faz da gravação que guardo dessa tarde uma amálgama de sons que eram e são o som do desespero, o som de quem já não sabe o que fazer.

Este homem que foi condenado à morte e executado na China, por alegada posse de drogas e outros pertences ilegais, era residente de Macau e chamava-se Lau Fat-wai. Vamos escrever mais vezes. Lau Fat-wai. Lau Fat-wai. Este homem – passaporte português, salvo-conduto chinês, bilhete de identidade de Vénus? – foi, como tantos no Continente, condenado à morte e executado, sem direito a defesa e a um tratamento justo – se é que pode ser possível falar em tratamentos justos num Estado que executa os seus cidadãos.

Hoje, como naquela tarde de Junho, fez-me muita confusão viver num país que comete este tipo de actos. Hoje, como então, tive a certeza que a China padece de problemas gravíssimos por resolver. Acharmos que “está tudo bem” é só mais um acto supremo de hipocrisia.

Nunca descansaremos em paz.

Advertisements
Standard

One thought on “Uma pena de morte

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s