Toca a circular

Inês Santinhos Gonçalves

Em ano de eleições pouco se avista da simpática (apesar de um pouco tonta) silly season. Para colmatar essa falha, venho aqui trazer uma preocupação de Verão, não tão insignificante como isso.

É com uma certa angústia que verifico que em Macau os locais públicos, ao ar livre, onde uma pessoa se possa sentar, estão rigidamente demarcados. São os ditos bancos de jardim (mas sem o verde envolvente), com os três assentos separadinhos por metal, não vá uma pessoa ter a tendência de estender as pernas para o lado ou, num acesso de loucura, deitar-se.

Salvo honrosas excepções, como as linhas de água juntos aos lagos (até ver!), o conceito de contemplação em espaço público parece causar uma certa comichão. Não me aconteceu apenas uma, nem duas, nem três vezes. Na ausência de relva nos nossos jardins – e se existisse seria com certeza para ser mantida em imaculadas condições – sentei-me num degrau aqui, num muro ali, tomando notas, tirando fotografias, lendo ou simplesmente fazendo nada. Qual quê. Aparece logo alguém, um segurança ou um polícia que me manda circular. A contemplação, ao que parece, estraga a paisagem.

Não deixa de ser irónico que uma cidade com o absurdo fluxo de turistas diários como Macau esteja preocupada em manter os degraus como eles são: de cimento e sem ninguém. Por todo o lado, pessoas. Mas o importante é que estejam a fazer alguma coisa, de preferência a comprar. Se quiserem apreciar o pátio interior do antigo Leal Senado, tirem antes umas fotografias e vão olhar para elas em casa.

Sempre me incomodou esta ideia de que a cidade não é para as pessoas. Que é um espaço unicamente utilitário e não de desfrute. Senti-o no primeiro momento que cheguei a Macau e talvez por isso continue a lançar olhares embevecidos aos velhotes que ousam parar e ficar, talvez porque a eles ninguém tenha coragem para os mandar circular.

Macau é (ou quer ser) um centro internacional de turismo e lazer, com Channel e Tiffany, centros comerciais temáticos e zonas de recreio delimitadas, com placas e setas douradas. Mas é também um espaço meu e vosso. Deve ser também lugar de todos, lugar de sentar, de ler, comer um gelado, pensar, conversar, sem que para isso seja preciso pagar taxa.

Macau é uma máquina de acolher, ordenar e encaminhar turistas, mas é também casa. E em casa não quero que me mandem ir à minha vida. 

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