Belo, Ruy, belo

Hélder Beja

Há duas noites estava em casa, sentado na penumbra, e um livro chamou-me – os livros são por vezes assim, chamam-te, convocam-te. Olhei para ele, peguei-lhe, sacudi-lhe o pó dos dias. Tinha um post it amarelo a marcar uma página. Eu não me lembro de ter colado aquele post it ali.

O livro era “Na Senda da Poesia”, de Ruy Belo, e convidava-me a ler sobre ‘poesia e arte poética em Herberto Helder’. É certo que o meu nome estava lá, que o Herberto Helder é um poeta valente e recluso, mas não me apetecia aquilo.

Dei-lhe um segunda chance, abri-o ao acaso noutra latitude de página e o que veio mostrou-me que, sim, o livro estava certo em pedir-me que lhe pegasse.

O pequeno ensaio chamava-se ‘a vida dos livros’ e rezava assim: “O livro, atenta a natureza da necessidade que visa satisfazer, é um bem complexo. Por se destinar a ser consumido pelo pensamento, não pode considerar-se uma simples mercadoria. As leis meramente económicas não lhe podem esgotar a vida”.

Em quatro páginas, Ruy Belo reflectia sobre a palavra impressa e o papel do editor. “O editor, o homem que a serve ao público, não pode assumir uma atitude meramente passiva.” O público, sabia Belo, “tem uma voz e fá-la chegar até ao editor sob os nomes comerciais de procura, compra, tiragem, lucro”. Só que “o editor que se decide a bater um sector inexplorado ou a lançar nomes que um silêncio culposo, suspeito ou involuntário cobriu por algum tempo, pode não encontrar caminho feito (…) mas, quanto mais não seja, serve a causa da liberdade”.

Ruy Belo acreditava que, tarde ou cedo, desde que o editor trilhasse o caminho da verdade, do belo e do bem, o público não deixaria de corresponder. E ele, o editor, teria sido “fiel a si próprio”, satisfazendo necessidades “que, nem por serem de sempre, deixam de ser de uma época”.

Belo, um poeta e um sonhador (sonhar é tão preciso), acreditava na figura do editor como aquele que “precipitará as condições que animarão a falar aqueles que nem sempre encontraram aberto neste mundo dos homens aquele espaço onde poderiam dizer a sua palavra”.

Vem tudo isto a propósito de nada, porque nem tudo tem de vir a propósito de alguma coisa. Ou talvez até venha. Como lembra Barthes no texto “Crítica e Verdade”, do século XVI ao século XIX “os proprietários incontestáveis da linguagem eram os escritores e somente eles; com excepção dos pregadores e dos juristas, fechados aliás nas suas linguagens funcionais, ninguém mais falava”. Isto, que pode parecer de somenos, é uma das grandes transformações destes tempos que vivemos.

A literacia, a tal democratização do conhecimento, os jornais, os blogues, a Internet – tudo nos mergulhou num caldo de grande produção escrita e, paradoxalmente, de quase inexistente produção de pensamento.

Na peça de teatro “Red”, sobre os dilemas morais do pintor Mark Rothko que o Centro Cultural trouxe a Macau pela mão de uma companhia de Hong Kong, o artista é um homem atormentando por essa incapacidade de pensar que o rodeia. Fiquei na posse de uma memorável dor de pescoço para conseguir ler as legendas da peça a partir de uma das primeiras filas, mas o texto era bom, como era bom, ou belo, o desespero de Rothko face a um momento civilizacional em que se resume tudo com um “tudo bem” ou um “fine”, em inglês. Então como estás? Tudo bem. E a família? Tudo bem. E o emprego? Tudo bem. E queres beber um copo? Tudo bem. E és idiota? Tudo bem.

Não está tudo bem. Neste tempo de politiquices rasteiras, de conversas vazias – também as minhas, pois claro –, de páginas cheias de amálgamas de letras que são na verdade páginas em branco (brancas de pensamento, vazias), neste tempo tocamos tudo ao de leve, com um surfista que nunca cai da prancha e vai lambendo a superfície da água. Não mergulhamos. A profundidade assusta-nos. Não temos tempo para ela, como provavelmente o leitor não teve tempo, ou vontade, ou paciência, ou, ou… para chegar ao fim deste texto que, afinal, tem a pretensão de se destinar a ser consumido pelo pensamento.

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