Amigos, liberdade e uma vida reflectida

Maria Caetano

A procura pela felicidade começou noutra era, exactamente quando nós começámos. Desde então, ainda não pensámos noutra coisa, numa perseguição obsessiva de um sentimento que se confunde com alívio, satisfação, alegria, bem-estar, e não é nada destas coisas.

O mito tornou-se tão grande e longo como as nossas vidas e tão frustrante como essa dimensão: a vida que vale a pena ser vivida é a vida feliz, todas as horas, dias, semanas, meses, anos da nossa vida.

O resto – que é tudo o que existe e fica aquém dessa perseguição – é a vida que não contamos, são os dias que não entram nas grandes memórias, nas fotografias, nas histórias que transmitimos uns aos outros. E é só a maior parte da vida.

A felicidade é também muitas vezes descrita como um contentamento, uma acção de graças, uma aceitação e coadunação com a realidade tal como ele é. Há o pobre feliz, a felicidade na ignorância e na falta de ambição. Depois há a dita felicidade das coisas simples, que vão do cheiro do pão quente ao som da chuva na janela, descrevem os líricos e algumas canções pop. Há sempre uma boa razão para se conseguir ainda ser feliz e há sempre alguém pior, na gradação das expectativas das comiserações pessoais.

Segundo Epicuro, a felicidade tem ordens de prioridade. Primeiro, contam os afectos, as amizades, a partilha, o não nos sentirmos a sós com o mundo. E depois entra a capacidade de auto-sustento, a margem suficiente para não dependermos de ninguém. Por fim, está a reflexão com que se têm entretido a filosofia e todos nós antes de adormecermos. No monólogo da almofada, trata-se apenas de saber se o que fazemos e o que pensamos estão de acordo connosco e não nos traem.

Mais ultimamente, a felicidade exprime-se em percentagem, em contas sociais. Depois do Butão, que nada tinha, mas que pelo menos queria saber se o seu povo era feliz, os Estados, as instituições académicas, as organizações de sondagens começaram a cometer a indiscrição de nos perguntarem se somos felizes. O que é que se responde a isto? Invariavelmente que sim ou que não – mas, sobretudo, mais que sim, porque fica mal actualmente alguém dar-se ao aborrecimento de não ser feliz. “A felicidade depende de si”, “ouse ser feliz”, “auto-estime-se”, “pense em si”, “aproveite cada dia como se fosse o último” – é a propaganda corrente.

Caro leitor, a sua felicidade não está nas suas mãos, tal como a minha não está nas minhas. A felicidade cai sobre as pessoas, tal como cai o pior cataclismo. A qualquer momento.

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