Eles sabiam

Hélder Beja

 

Vítor Gaspar sabia. Ao tomar a decisão de se demitir, dizendo-se incapaz de continuar, usando palavras que vagueiam entre uma noção de dever cumprido e o assumir de responsabilidades pelos problemas estruturais do país – da não recuperação da economia aos níveis de desemprego –, Vítor Gaspar sabia o que ia acontecer a seguir. “Os riscos e desafios dos próximos tempos são enormes. Exigem a coesão do Governo. É minha firme convicção que a minha saída contribuirá para reforçar a sua liderança e a coesão da equipa governativa”, disse com certa ironia na carta enviada a Pedro Passos Coelho, subscrevendo-se “com amizade, lealdade e admiração”. E lembrou: “Cabe-lhe o fardo da liderança”. Cair Gaspar significava cair a cabeça de todo um plano assente na austeridade, na subida de impostos, nos desbastes de salários e pensões, no desinvestimento que corta alguma coisa na despesa mas quem como o termo indica, não gera novo investimento. Cair Gaspar significava a queda do que restava de um plano e de uma ideia de governação que –  apesar de ter até dado espaço para que Gaspar fizesse anedotas sobre os sofrimentos que o Benfica lhe infligia, enquanto os portugueses sofriam com as suas políticas – ninguém acreditou que estivesse com outra pessoa (o plano) que não fosse Vítor Gaspar.

Pedro Passos Coelho sabia. Ao escolher Maria Luís Albuquerque para substituir Vítor Gaspar, o primeiro-ministro português potenciava o choque frontal com Paulo Portas, que antes de ser ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros é líder de um dos partidos da coligação. Portas, uma espécie de principal rosto da oposição ao Governo do qual faz (fez?) parte, uma falsa virgem ofendida em rota de colisão com as políticas de Vítor Gaspar, quereria uma nomeação que fosse do agrado do CDS. Pedro Passos Coelho escolheu a continuidade assegurada por Albuquerque. Além de chocar com Portas, chocou, obviamente, com a opinião pública, ao nomear alguém que tem estado na ordem do dia por todos os melhores assuntos, como a sua relação com o caso dos produtos financeiros de alto risco negociados no sector público (swaps).

Paulo Portas sabia. Ao demitir-se, ao mostrar mais uma vez a esperteza que lhe é reconhecida mas que se revelou pouco mais que saloia, estava a sacudir a água do capote, a entalar Passos Coelho, como diz a manchete de ontem do jornal Público, e a assinar a sentença de morte do Governo. “Expressei, atempadamente, este ponto de vista ao primeiro-ministro que, ainda assim, confirmou a sua escolha. Em consequência, e tendo em atenção a importância decisiva do Ministério das Finanças, ficar no Governo seria um acto de dissimulação. Não é politicamente sustentável, nem é pessoalmente exigível.” Aos portugueses todos os sacrifícios têm sido pessoalmente exigíveis, a Portas, e segundo Portas, não lhe era pessoalmente exigível tentar encontrar soluções que permitissem a continuidade do Governo.

Cavaco Silva sabia. Ao compactuar com a esquizofrenia desta marcha fúnebre, ao decidir dar o aval à escolha de Passos por Maria Luís Albuquerque para a pasta das Finanças, ao afastar novamente a possibilidade de tentar resolver a crise política instalada, fazendo vista grossa ao que está a acontecer e deixando as decisões nas mãos do parlamento, Cavaco Silva contribuiu outra vez para o mísero espectáculo oferecido pelas esferas governativas. A cerimónia de tomada de posse de Albuquerque em Belém, já depois de conhecida a carta de demissão de Paulo Portas, teve contornos grotescos.

No final, Passos Coelho veio a terreiro dizer que não se demitia, que não abandonava o país, que foi apanhado de surpresa pela decisão de Portas e que não aceitava a sua demissão. Pouco interessa saber quem mente, apesar de duas coisas serem claras: Portas é tão confiável para qualquer coligação governativa quanto as previsões meteorológicas para os banhias; e Passos Coelho tem a inteligência política de um distribuidor de panfletos e balões de campanha. Ontem, os restantes ministros e secretários de Estado do CDS apresentaram as suas cartas de demissão. Durante a madrugada tudo pode ter acontecido.

O historiador e eurodeputado Rui Tavares escrevia de tríade do apocalipse, referindo-se a Cavaco, Passos e Portas. É preciso juntar-lhe Vítor Gaspar. Gaspar, Passos, Portas e Cavaco Silva sabiam. Sabiam o que aí vinha. Os juros da dívida estão a subir, a famosa confiança dos mercados a descer, o devaneio europeu a continuar. Restam-nos eleições antecipadas, onde se vislumbram cenários tão interessantes como um país governado por António José Seguro e até, quem sabe, uma coligação, PS-CDS.

O Estado vai nu.

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