Refúgio no interesse

Paulo Rego

Vivi na pele da idade da inocência a revolta da geração que, sentindo o país como seu, percebeu que o patriotismo era manipulado como instrumento de manutenção do regime. É o “refúgio dos canalhas”, dizia-me um velho senhor, militar e patriota como poucos conheci depois dele. E eu, embevecido, olhava para ele com o coração de menino e intuía que o problema dos conceitos e das convicções, como muitas vezes o da lei, não está nos seus fundamentos, mas sim na sua cultura de aplicação.

O interesse público, que agora está na moda, também serve para tudo e mais alguma coisa. Por exemplo, para que Salazar explicasse a uma anciã que não fazia sentido dotar a sua aldeia com água canalizada porque a seguir as senhoras, não indo à fonte com o cântaro às costas, não teriam onde conversar umas com as outras, dessa forma alivianbdo o peso da boçalidade dos maridos e o fardo de perceber como a pobre elite palaciana sofria para gerir um país que, imagine-se, até já pedia água canalizada.

A cultura democrática também cravou as suas pérolas na demagogia, desviando para consultas públicas e referendos assuntos fracturantes que o poder político transfere para o campo da ignorância técnica e dos conflitos ideológicos, livrando-se do ónus da impopularidade que muitas vezes implica garantir a modernidade e patrocinar os direitos assimilados pelas minorias.

O interesse público serve em Macau, por exemplo, para a explicação iluminada  segundo a qual só pode ser cego quem não vê que o sufrágio universal não pode viver debaixo deste céu; porque o povo, na sua santa ignorância, escolheria os representantes do mal. Mas também serve para sustentar a ilegalidade e o enriquecimento ilícito de empresas como as das antenas públicas que, com a cumplicidade dos governantes, actuaram desde sempre num mercado paralelo protegido.

Serve para tudo esse famoso interesse público… Mas já não serve para a defesa de um regime transparente nem para a fiscalização dos actos públicos e dos negócios privados. Porque é mais importante manter a opacidade e proteger o público do risco de saber mais do que deve – para a sua própria tranquilidade, claro. No julgamento dos casos conexos ao de Ao Man Long, Eddie Wong, presidente da Associação dos Arquitectos e membro do Conselho Executivo, foi impedido de testemunhar pelo Chefe do Executivo; e o deputado Chui Sai Cheong também não vai a tribunal – nem sequer pode enviar um depoimento por escrito – por decisão formal do presidente da Assembleia Legislativa. Motivo? Ninguém sente sequer a necessidade explicar. Basta decidir que é do interesse público não expor a elite da terra aos podres com que os agentes do poder político contactam por força da sua relação com negócios privados. Não vá o público não saber lidar depois com matéria tão complexa, quebrando o cântaro da ilusão e perdendo a fé. Vá-se lá saber o que diriam depois no café…

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