Ao futuro

Inês Santinhos Gonçalves

 

Diz a sabedoria popular que o futuro a Deus pertence. Eu, que não creio em divindades, tenho alguma dificuldade em deixar ao acaso os dias que estão para vir. O futuro é nosso, afinal. E se não controlamos o inesperado (felizmente!) controlamos os desejos e o que fazemos para os concretizar.

Este pode ser um ano de futuro para Macau, como podem ser sempre os anos de eleições. Há algum debate (pouco), ideias (escassas) e polémicas, que sempre impulsionam a discussão pública. Não será este ano que Macau se tornará mais democrático, mas quem sabe são eleitas mais pessoas com fé no voto universal. Quem sabe a Assembleia Legislativa reduz a quota de deputados que acredita que a população é composta por gente incapaz de exercer cidadania. Talvez tenhamos menos interesses instalados, talvez se acumulem mais votos contra propostas de lei insuficientes, talvez não ouçamos tão frequentemente frases como “Há casos de violência familiar que não são intencionais”.

O futuro é este ano e pode ser uma grande frustração. Mas se o for, sabemos ao menos que ainda não desistimos de Macau, que ainda não nos divorciámos deste projecto social, político e económico. Se ficarmos frustrados com os resultados, é porque não vivemos aqui como quem vive no Chile ou no Canadá. É porque não estamos alienados do que nos rodeia, é porque desejamos ainda ver esta cidade que nos dá casa ser melhor. É porque pertencemos.

Eu, que sou jornalista e não posso evidentemente candidatar-me a seja o que for, aqui faço a minha campanha sem receio de avisos da Comissão dos Assuntos Eleitorais: votem. Os que podem, claro. Porque para muitos dos que cá vivem, o sufrágio não é uma questão de tempo, mas uma impossibilidade. Votem e façam-no por um projecto de cidade que seja para todos e não apenas para alguns. Votem por Macau e não por uma língua ou um amigo. Votem em apoio, votem em protesto, votem em desilusão, mas votem. E os que não podem – tantos e tantos – leiam, discutam, reclamem, opinem. Porque o futuro é nosso mas só se o quisermos agarrar.

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