Ser ou não ser

Sónia Nunes

Entre as minhas literaturas mais queridas está “Hamlet”, de William Shakespeare. Se me deslumbrei primeiro com a densidade existencialista do príncipe da Dinamarca e a lindíssima carta de amor escrita a Ofélia, estou hoje mais seduzida pela trama da traição, da vingança e da corrupção moral, o que diz muito mais acerca da minha vida do que da obra em si. É com certo lamento que admito que o dilema do “ser ou não ser”, que começou a ser lido por mim como a questão maior do que devemos Ser, é hoje mais a hesitação do Estar – do agir ou não agir, dizer ou não dizer. A isto não será indiferente o facto de a pergunta ser feita quando Hamlet está de caveira na mão, entre dois coveiros e uma campa que se revelou perpétua.

O que é mais nobre, caros seguidores das campas com casos: manter no espírito as setas que nos atiram ou “insurgir-nos contra um mar de provocações/E em luta pôr-lhes fim?”. Este será hoje o drama da secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, arguida e sujeita a um pré-julgamento em tribunal, suspeita de falsificação de documentos, abuso de poder e prevaricação por minudências várias, num processo que, depois do despacho do Tribunal de Última Instância, só pode ser descrito como injusto. Florinda Chan foi ilibada. E agora?

Este é também o drama de Chui Sai On. O Chefe do Executivo confirmou a confiança política na secretária ao decidir não abrir qualquer processo de averiguações por entender que a decisão do TUI afastou qualquer suspeita. Já tinha sido assim, em 2010, quando o Comissariado contra a Corrupção também ilibou a secretária, mas concluiu que Florinda Chan “deveria ter condições objectivas” para “tomar medidas para prevenir a tomada de decisões ilegais, ‘inoportunas’ e ‘inconvenientes’” pelo antigo Leal Senado, e ordenado a abertura de um inquérito em 2009.

Sem provas, com os prazos para haver responsabilização criminal ou disciplinar já ultrapassados, o Chefe do Executivo continua a enfrentar uma pergunta: este processo afectou a credibilidade do Governo? Eis a questão que não pode ser contraposta com sim ou não, mas que Chui tem o dever  de responder. Na quinta-feira, fez aquilo que um político faz melhor em conferências de imprensa: esquivou-se à pergunta. Falou de um caso relacionado, o do presidente do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, Raymond Tam, para responder à questão que queria que lhe tivesse sido feita e dizer que foi aberto um processo de averiguações.

Chui Sai On terá aprendido mais com Edmund Ho a não comentar processos políticos do que com as teorias behavioristas. Mas o certo é que precisa de preparar uma resposta e confirmar o que Florinda Chan afirmou ontem sobre a unidade do Governo porque, aqui, o resto não é silêncio.

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